O desafio da igualdade de oportunidades nas empresas
A presença de profissionais negros e mulheres em posições de liderança ainda representa um desafio para o mercado de trabalho brasileiro. Embora a diversidade tenha ganhado espaço nos discursos institucionais e nas políticas corporativas, o acesso aos cargos de decisão continua marcado por desigualdades que refletem barreiras históricas, culturais e estruturais.
Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados de 2022, aponta que as mulheres ocupavam apenas 39,3% dos cargos gerenciais no país. A desigualdade também se manifesta na remuneração: naquele ano, o rendimento médio das mulheres em funções de gerência era 21,2% inferior ao dos homens.
Quando o recorte considera a questão racial, o cenário é ainda mais expressivo. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), publicada em agosto de 2025, analisou 390 companhias de capital aberto e identificou que 82,6% dos cargos de alto escalão eram ocupados por pessoas brancas. Pessoas pretas representavam apenas 0,5% dessas posições. O levantamento também revelou um contraste entre o quadro geral de funcionários e as funções de liderança: enquanto pessoas brancas correspondiam a 40,3% do total de empregados, sua participação chegava a 58,2% entre os profissionais em posições de comando.
A desigualdade também aparece na remuneração. Segundo levantamento do IBGE divulgado em dezembro de 2025, profissionais pretos e pardos que ocupavam cargos de direção e gerência recebiam, em média, 34% menos que trabalhadores brancos nas mesmas funções. Em valores, o rendimento mensal era de R$ 6.446 para os profissionais negros, diante de R$ 9.831 para os brancos.
Para o advogado empresarial e professor Ruy Andrade, especialista em Direito Societário e Governança Corporativa, sócio-fundador do Ruy Andrade Advocacia, a representatividade precisa ser incorporada à estrutura de gestão das organizações. “A diversidade nos espaços de liderança não deve ser tratada apenas como uma pauta institucional ou uma iniciativa de valorização da imagem corporativa. É uma questão que envolve governança, critérios de escolha, transparência e igualdade de oportunidades. Uma empresa que pretende construir uma gestão sólida precisa estar atenta a quem participa das decisões e às condições que permitem o desenvolvimento de diferentes talentos”, afirma.
Do ponto de vista jurídico, a igualdade de oportunidades não se limita a um compromisso ético ou a uma diretriz de responsabilidade social. A Constituição Federal estabelece a igualdade como princípio fundamental, enquanto a legislação brasileira prevê mecanismos de proteção contra a discriminação nas relações de trabalho. A Lei nº 9.029/1995, por exemplo, proíbe práticas discriminatórias para efeitos de acesso e manutenção da relação de trabalho.
Nesse contexto, a governança corporativa assume papel relevante. Empresas comprometidas com uma gestão responsável precisam incorporar a diversidade às suas estruturas de decisão, estabelecer mecanismos de acompanhamento e criar ambientes nos quais as oportunidades de crescimento não sejam determinadas por gênero, raça ou origem social. “A governança também se revela na capacidade de uma organização identificar desigualdades, estabelecer critérios objetivos e criar mecanismos para que as oportunidades sejam efetivamente acessíveis. Não basta estabelecer metas ou divulgar compromissos: é preciso transformar essas diretrizes em práticas verificáveis e permanentes”, acrescenta Ruy Andrade.
A discussão também alcança as lideranças e os conselhos de administração. Avaliar quem ocupa os espaços de poder, quais critérios orientam as escolhas e se as oportunidades de ascensão estão disponíveis a todos são questões fundamentais para organizações que buscam uma gestão mais transparente e responsável. O desafio das empresas, portanto, é transformar o discurso da diversidade em práticas permanentes, capazes de produzir mudanças concretas na composição de suas lideranças e na cultura organizacional.

