A cada mês, milhares de casais vivem a mesma expectativa: a esperança de um teste positivo. Quando a gravidez não acontece, surgem dúvidas, frustrações e, muitas vezes, um sentimento silencioso de que algo está errado. Com o passar do tempo, a busca por respostas pode transformar não apenas a rotina, mas também a forma como o casal se relaciona.
Em junho, mês dedicado à conscientização sobre a infertilidade, especialistas chamam atenção para uma condição que afeta cerca de 17,5% da população adulta mundial, o equivalente a uma em cada seis pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora o tema seja frequentemente associado às mulheres, os fatores masculinos estão presentes em aproximadamente 40% a 50% dos casos, isoladamente ou em conjunto com fatores femininos.
Para a especialista em reprodução humana Dra. Wendy Delmondes, a campanha é uma oportunidade para ampliar o debate sobre a infertilidade e seus impactos, que vão muito além da capacidade de engravidar.
“Historicamente, a fertilidade foi tratada como uma questão feminina. Muitas vezes, a mulher inicia uma longa investigação antes mesmo que o parceiro realize uma avaliação básica. A infertilidade, porém, é uma condição do casal e deve ser investigada de forma conjunta”, explica.
Mas os efeitos da infertilidade não se limitam aos exames, consultas e tratamentos. A ansiedade diante da espera, a frustração pelas tentativas sem sucesso e a pressão em torno da gravidez podem afetar diretamente a autoestima, a saúde emocional e a vida sexual.
Segundo a médica, um dos impactos mais frequentes é a perda da espontaneidade. O que antes era um momento de conexão e intimidade passa a ser guiado pelo calendário, pelo período fértil e pelas expectativas em torno da concepção.
“Muitos casais passam a vivenciar a relação sexual como uma obrigação. Aos poucos, o erotismo, a sensualidade e o envolvimento emocional podem ficar em segundo plano. Isso gera insatisfação, aumenta a ansiedade e cria um ciclo que compromete ainda mais o bem-estar do casal.”
A especialista ressalta que homens e mulheres costumam vivenciar esse processo de maneiras diferentes. Entre as mulheres, condições frequentemente associadas à infertilidade, como síndrome dos ovários policísticos (SOP) e endometriose, também podem interferir na qualidade de vida e na função sexual. Já entre os homens, especialmente quando existe um fator masculino envolvido, são comuns sentimentos de culpa, medo do fracasso e insegurança.
“Muitos homens ainda associam fertilidade à masculinidade. Quando recebem um diagnóstico relacionado à fertilidade, podem experimentar sofrimento emocional significativo e até evitar o contato sexual por receio de não corresponder às expectativas.”
Além disso, fatores como obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, uso de anabolizantes e algumas doenças crônicas podem comprometer a fertilidade masculina, reforçando a importância do acompanhamento especializado e do diagnóstico precoce.
Apesar dos desafios, Wendy destaca que a infertilidade não precisa ser vivida apenas como uma experiência de sofrimento. O diálogo, o acolhimento e o apoio mútuo podem fortalecer os vínculos durante essa jornada.
“Compartilhar medos, expectativas e frustrações pode aumentar os sentimentos de parceria e intimidade emocional. A infertilidade não afeta apenas a capacidade de engravidar; ela impacta relacionamentos, autoestima e projetos de vida. Por isso, o cuidado deve incluir tanto os aspectos médicos quanto a saúde emocional do casal”, conclui.

