VI SIDII reuniu cerca de 350 profissionais de saúde, promoveu atualização científica multidisciplinar e destacou avanços no diagnóstico precoce e na personalização dos tratamentos
Salvador reafirmou seu protagonismo na discussão científica ao sediar, nos dias 31 de julho e 1º de agosto, a sexta edição do Simpósio Interdisciplinar de Doenças Inflamatórias Intestinais (SIDII). Reunindo aproximadamente 350 participantes e 14 especialistas convidados de diferentes estados brasileiros, o encontro consolidou-se como um dos principais fóruns nacionais dedicados à atualização sobre Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa, reunindo médicos, enfermeiros, nutricionistas, farmacêuticos, psicólogos e outros profissionais envolvidos na assistência integral aos pacientes.
Durante dois dias de conferências, mesas-redondas e discussões de casos clínicos, especialistas apresentaram os avanços mais recentes no diagnóstico, monitoramento e tratamento dessas doenças, que vêm registrando crescimento expressivo no Brasil e no mundo. Um dos principais destaques da programação foi a evolução da chamada “Medicina de Precisão”, estratégia que busca identificar a terapia mais adequada para cada paciente, no momento ideal da doença.
Segundo a gastroenterologista Genoile Santana, responsável técnica do simpósio, diretora da Cliagen (Grupo CITA) e uma das organizadoras do evento, o encontro evidenciou a transformação que a área vem passando: “Vivemos dois dias intensos de atualização científica, reunindo diversas especialidades que participam do cuidado desses pacientes. Um dos temas que despertou maior interesse foi a medicina de precisão. Já dispomos de algumas ferramentas capazes de direcionar melhor o tratamento, mas estamos entrando em uma nova fase, com estudos e tecnologias que permitirão definir cada vez mais qual a melhor terapia para cada paciente e em que momento ela deve ser utilizada. Esse é o futuro das doenças inflamatórias intestinais.”.
Doenças deixam de ser consideradas raras
Responsável pela conferência sobre epidemiologia das DIIs, o gastroenterologista José Miguel Parente destacou que o Brasil vive uma mudança importante no comportamento dessas enfermidades. Segundo ele, após décadas de aumento do número de novos casos, o país entrou na fase de crescimento da prevalência, o que significa que existe hoje um contingente cada vez maior de pessoas convivendo com Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa. “As doenças inflamatórias intestinais deixaram de ser consideradas raras no Brasil. Não estamos diante de uma epidemia, mas de um aumento expressivo de pacientes, o que traz impactos importantes para os sistemas público e privado de saúde e para a qualidade de vida dessas pessoas”, afirmou.
Trabalho conjunto melhora diagnóstico e tratamento
A necessidade de integração entre diferentes especialidades também foi um dos principais temas debatidos durante o simpósio. O reumatologista Alexandre Ibrahim, sócio-diretor da Novaimuno (Grupo CITA), destacou que muitos pacientes apresentam sintomas fora do intestino, especialmente nas articulações, o que exige uma atuação conjunta entre gastroenterologistas e reumatologistas. “As manifestações articulares são as complicações extraintestinais mais frequentes das DIIs e podem acometer até 40% dos pacientes, dependendo da população estudada. Saber diferenciar dores mecânicas das dores inflamatórias e identificar precocemente esses sinais permite encaminhar o paciente no momento correto e construir, em conjunto, a melhor estratégia terapêutica”, explicou; De acordo com ele, compreender toda a jornada do paciente, desde o aparecimento dos primeiros sintomas até o acompanhamento de longo prazo, é fundamental para reduzir atrasos diagnósticos e melhorar os resultados do tratamento.
Crescimento dos casos em crianças preocupa especialistas
A programação dedicou espaço especial às DIIs na infância e adolescência, tema considerado prioritário diante do aumento da incidência nessa faixa etária. A professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Elizete Lomazi, ressaltou que o crescimento dos casos pediátricos torna indispensável a atualização permanente dos profissionais. “Vivemos um momento epidemiológico de aumento das doenças inflamatórias intestinais também entre crianças e adolescentes. Isso exige médicos preparados para realizar diagnóstico precoce e utilizar corretamente as terapias disponíveis. Eventos como o SIDII têm impacto direto na qualificação da assistência”, afirmou. Durante suas apresentações, a especialista abordou estratégias para prevenir reações infusionais aos imunobiológicos e a utilização do monitoramento terapêutico de medicamentos (TDM), ferramenta que permite acompanhar os níveis séricos das drogas e aumentar a eficácia do tratamento em pacientes pediátricos.
Também na área pediátrica, a gastropediatra Luciana Rodrigues Silva, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), apresentou resultados inéditos de pesquisas nacionais que demonstram o aumento da incidência e da prevalência das doenças inflamatórias intestinais em crianças e adolescentes brasileiros. Segundo ela, o diagnóstico precoce nessa fase da vida é decisivo para reduzir impactos sobre crescimento, desenvolvimento e qualidade de vida.
“Quanto mais tempo a criança permanece sem diagnóstico, menores tendem a ser as respostas ao tratamento. Por isso é fundamental capacitar pediatras para reconhecer precocemente essas doenças e garantir acesso mais rápido aos exames e às medicações”, explicou a especialista. Ela também chamou atenção para a necessidade de gestores públicos e privados ampliarem o acesso aos recursos diagnósticos e reduzirem a burocracia para disponibilização de medicamentos.
Novas tecnologias ampliam possibilidades de acompanhamento
Outro avanço discutido durante o simpósio foi a incorporação do ultrassom intestinal como ferramenta de monitoramento das doenças inflamatórias intestinais. A gastroenterologista Julia Cabral, da Clínica Ibis (Grupo CITA), explicou que o exame representa uma mudança importante na prática clínica por permitir avaliar a atividade inflamatória de forma rápida, segura e sem exposição à radiação: “O ultrassom intestinal possibilita acompanhar a inflamação muitas vezes durante a própria consulta, sem necessidade de preparo intestinal. Isso torna as decisões terapêuticas mais ágeis e favorece um acompanhamento mais dinâmico dos pacientes.”.

