Agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP podem retardar o esvaziamento gástrico e aumentar o risco de broncoaspiração durante a anestesia
O crescimento do uso de medicamentos agonistas do receptor GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP para o tratamento do diabetes e da obesidade trouxe uma nova preocupação para a segurança de pacientes que serão submetidos a procedimentos cirúrgicos. Diante das evidências mais recentes, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) atualizou suas recomendações para o manejo dessas medicações no período perioperatório.
A principal orientação é que o paciente informe ao anestesiologista, ainda durante a avaliação pré-anestésica, se faz uso desses medicamentos. A recomendação é importante porque essas substâncias podem retardar o esvaziamento do estômago, fazendo com que haja conteúdo gástrico mesmo após o período habitual de jejum e, consequentemente, aumentando o risco de regurgitação e broncoaspiração durante a anestesia.
“Informar o uso do medicamento é uma medida simples, mas fundamental para que o anestesiologista possa avaliar os riscos e definir a estratégia mais segura para cada paciente. A decisão sobre manter ou suspender a medicação não deve ser tomada isoladamente pelo paciente”, explica o médico anestesiologista e presidente da Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas da Bahia (Coopanest-BA), Hugo Dantas.
Segundo as novas recomendações, pacientes que utilizam agonistas de GLP-1 ou coagonistas GLP-1/GIP nos últimos seis meses e têm cirurgia eletiva programada devem ser avaliados antecipadamente em consulta pré-anestésica. A conduta em relação ao medicamento deve considerar a técnica anestésica, o risco individual de broncoaspiração e a necessidade de realização ou eventual adiamento do procedimento.
Entre os fatores que podem aumentar o risco estão o início recente do tratamento, aumento recente da dose, sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos, refluxo, sensação de estômago cheio e dispepsia, além de condições como gastroparesia, obstruções gastrointestinais e diabetes de longa duração ou com controle inadequado.
“É importante que o paciente não esconda o uso da medicação por receio de ter a cirurgia adiada. O objetivo da avaliação é justamente identificar os riscos antes do procedimento e permitir que a equipe médica tome a melhor decisão. Em alguns casos, pode ser necessário suspender temporariamente o medicamento; em outros, a medicação poderá ser mantida, dependendo das condições clínicas e da estrutura disponível”, destaca Hugo Dantas.
A orientação da SBA prevê, inclusive, a possibilidade de utilização da ultrassonografia gástrica no dia da cirurgia para avaliar a presença de conteúdo no estômago. Quando identificada uma condição de maior risco, a equipe pode optar pelo adiamento da cirurgia eletiva ou pela adoção de uma técnica anestésica específica.
A atualização também recomenda medidas relacionadas ao preparo pré-operatório, como dieta líquida sem resíduos nas 24 horas anteriores e jejum completo de 8 a 12 horas antes do procedimento, de acordo com a avaliação e os protocolos adotados.
Para Hugo Dantas, a mudança reforça a importância da consulta pré-anestésica como etapa essencial da segurança cirúrgica. “A anestesia é planejada a partir de um conjunto de informações sobre o paciente. Por isso, além de informar quais medicamentos utiliza, é importante relatar sintomas gastrointestinais e qualquer outra condição de saúde. Quanto mais completa for essa avaliação, mais segura será a definição da conduta anestésica”, afirma.
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