Estudos internacionais recentes, publicados em revistas de saúde de referência, como a The Lancet, projetam que a Doença Renal Crônica (DRC) pode se tornar a 5ª principal causa de morte no mundo até 2050. O problema atinge mais de 800 milhões de adultos no planeta. No Brasil, estima-se que cerca de um em cada dez adultos conviva com a doença, embora boa parte desconheça o diagnóstico. Nesse contexto, a nefrologista baiana Manuela Lordelo reforça que a DRC é uma epidemia global e silenciosa, impulsionada pelo crescimento do diabetes, da hipertensão arterial e da obesidade, e que exige atenção redobrada.
A ausência de sintomas nas fases iniciais é um dos principais desafios para o enfrentamento da doença. Na maioria dos casos, a perda da função dos rins ocorre de forma lenta e progressiva, sem provocar dor ou alterações perceptíveis, fazendo com que muitos pacientes descubram o problema apenas quando já existe comprometimento importante do órgão. “A doença renal crônica é silenciosa. Quando surgem manifestações como inchaço, cansaço excessivo, alteração no volume da urina, espuma persistente na urina ou aumento da pressão arterial, muitas vezes ela já está em estágios mais avançados”, explica Manuela Lordelo.
Segundo a especialista, o diagnóstico tardio também está relacionado à baixa realização de exames preventivos entre pessoas que apresentam fatores de risco. Pacientes com diabetes, hipertensão arterial, obesidade, doenças cardiovasculares, histórico familiar de doença renal, idosos e pessoas que já tiveram episódios de lesão renal aguda devem incluir a avaliação da função dos rins no acompanhamento de rotina. “Hoje sabemos que identificar a doença antes do aparecimento dos sintomas faz toda a diferença. Quanto mais cedo iniciamos o tratamento e controlamos os fatores de risco, maiores são as chances de retardar sua progressão e preservar a função dos rins”, afirma.
Além de reduzir o risco de evolução para insuficiência renal, o diagnóstico precoce permite adotar medidas capazes de evitar ou postergar a necessidade de terapias substitutivas, como a diálise ou o transplante. Controle rigoroso da pressão arterial e da glicemia, alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, suspensão do tabagismo e uso de medicamentos específicos, quando indicados, estão entre as estratégias que ajudam a desacelerar a evolução da doença. “Atualmente, dispomos de tratamentos que conseguem proteger os rins e oferecer mais qualidade de vida aos pacientes, mas eles são muito mais eficazes quando iniciados precocemente. Por isso, investir em prevenção e rastreamento é fundamental”, ressalta a nefrologista.
Exames simples podem identificar a doença antes dos sintomas
A doença renal crônica pode ser detectada por meio de exames simples, acessíveis e de baixo custo, muitas vezes incluídos em um check-up de rotina. A avaliação envolve a dosagem da creatinina no sangue, utilizada para calcular a taxa de filtração glomerular estimada (eTFG), além do exame de urina e da relação albumina/creatinina urinária, capazes de identificar precocemente alterações na função dos rins e a presença de proteínas na urina. “Esses exames são fundamentais para diagnosticar a doença ainda nas fases iniciais, quando o paciente geralmente não apresenta sintomas. O rastreamento dos grupos de maior risco é uma das estratégias mais eficazes para reduzir a progressão da doença e evitar complicações futuras”, conclui Manuela Lordelo.

