quarta-feira, setembro 2, 2026
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Seu relógio sabe mais sobre você do que imagina, e quem controla os dados do corpo?

Com a expansão de relógios inteligentes, aplicativos e sensores, informações sobre sono, frequência cardíaca e hábitos passam a ser coletadas continuamente. E levantam novos desafios para a privacidade

Relógios inteligentes, pulseiras, sensores e aplicativos transformaram o corpo em uma fonte permanente de dados. Informações como frequência cardíaca, sono, atividade física, localização e padrões de comportamento são coletadas diariamente, criando possibilidades para o autocuidado e para a evolução da saúde digital. Ao mesmo tempo, surge uma pergunta cada vez mais relevante: quem controla tudo o que esses dispositivos sabem sobre nós?

Para Gabriel Ferreira, advogado associado do Ruy Andrade Advocacia, especialista em compliance e operações de privacidade, professor e palestrante, a mudança é profunda. “O dado de saúde deixou de ser produzido apenas dentro de hospitais, clínicas e laboratórios. Agora, ele é gerado continuamente pelo próprio indivíduo, muitas vezes sem que exista uma percepção clara sobre a quantidade, a natureza e o destino dessas informações”, afirma.

A discussão se aproxima do conceito de capitalismo de vigilância, formulado pela professora de Harvard Shoshana Zuboff, no qual experiências humanas são transformadas em dados capazes de gerar previsões sobre comportamentos. Na saúde, porém, a questão ganha uma dimensão ainda mais sensível. “Uma informação sobre frequência cardíaca, sono, glicemia, localização ou padrões comportamentais pode revelar muito mais sobre uma pessoa do que ela própria imagina”, explica Gabriel.

Outro ponto de atenção é a falsa sensação de segurança proporcionada pela anonimização. A combinação de diferentes bases pode permitir a reconstrução de padrões e até a identificação de indivíduos. Com o avanço da inteligência artificial, o volume de dados amplia também a capacidade de produzir previsões e recomendações personalizadas. Para Gabriel, o debate precisa ir além do que a tecnologia é capaz de fazer. “Na saúde, capacidade tecnológica e legitimidade para utilizar uma informação são coisas diferentes.”

O desafio, segundo ele, será fazer inovação e privacidade avançarem juntas. “Talvez a principal pergunta da saúde digital não seja apenas quanto conseguimos medir, mas quem pode acessar aquilo que medimos, para qual finalidade e sob quais limites.”

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