Campanha dedicada às hepatites virais também serve de alerta para doenças hepáticas autoimunes, que costumam ser descobertas apenas quando o fígado já apresenta danos importantes
O Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais, celebrado em 28 de julho, marca o auge da campanha Julho Amarelo, dedicada à conscientização sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento dessas doenças. A mobilização também é uma oportunidade para ampliar o olhar sobre a saúde do fígado e chamar atenção para enfermidades menos conhecidas, como a hepatite autoimune.
Nessa condição, o próprio sistema imunológico passa a atacar as células hepáticas de forma contínua e silenciosa, podendo evoluir para cirrose quando o diagnóstico é tardio. Segundo a gastro-hepatologista da Clínica IBIS, Dra. Lourianne Cavalcante, apesar de menos frequente que as hepatites virais, a doença costuma ser identificada tardiamente justamente porque seus sintomas são inespecíficos ou sequer aparecem nas fases iniciais.
“Ela é pouco conhecida por ser menos frequente que as causas virais e metabólicas, com cerca de um a dois casos novos por 100 mil habitantes ao ano. Segundo, não tem o ‘apelo’ das campanhas de saúde pública: não há vacina, não há transmissão, não há um agente externo a combater, então ela raramente entra no discurso preventivo. E terceiro, os sintomas são vagos e inespecíficos, facilmente confundidos com cansaço do dia a dia. O resultado é que muitos pacientes só descobrem a doença quando o fígado já sofreu dano significativo”, afirma.
Doença pode evoluir durante anos sem sintomas
Um dos maiores desafios da hepatite autoimune é justamente seu comportamento silencioso. Em muitos casos, a doença é descoberta apenas por alterações em exames laboratoriais com sintomas inespecíficos ou quando já existe comprometimento importante do fígado.
Entre os sintomas mais comuns estão fadiga persistente, mal-estar, desconforto na região superior direita do abdome, dores articulares e, nos casos mais avançados, icterícia — caracterizada pelo amarelamento da pele e dos olhos. Mulheres também podem apresentar alterações menstruais.
“Uma proporção considerável dos pacientes é assintomática no momento do diagnóstico e a doença é descoberta devido enzimas hepáticas alteradas e sintomas como cansaço e fadiga, ou, infelizmente, já na fase de cirrose e insuficiência hepática. É justamente esse caráter insidioso que torna perigosa a inflamação silenciosa. O fígado vai sendo lesado ao longo de meses ou anos sem dar sinais claros. Por isso, valorizamos tanto não ignorar um exame de sangue com transaminases elevadas, mesmo sem sintoma claro”, explica a especialista.
Diagnóstico exige investigação especializada
Ao contrário das hepatites A, B e C, causadas por vírus, a hepatite autoimune surge a partir de uma alteração no funcionamento do sistema imunológico. Essa diferença muda completamente a forma de tratar a doença.
“Nas hepatites virais, nós combatemos o vírus: a hepatite A é tratada com suporte; a B é controlada com antivirais; e a C hoje é curada em mais de 95% dos casos com os antivirais de ação direta, em poucas semanas de tratamento. Já na hepatite autoimune fazemos o caminho oposto, em vez de combater um agente externo, precisamos frear o próprio sistema imune com medicamentos imunossupressores, tipicamente corticóide associado à azatioprina”.
Ainda segundo a especialista, o diagnóstico combina exames laboratoriais, pesquisa de autoanticorpos, exclusão de outras doenças hepáticas e, frequentemente, biópsia do fígado para avaliar o grau de inflamação e fibrose.
Mulheres são maioria, mas qualquer pessoa pode desenvolver a doença
Embora a hepatite autoimune seja cerca de três a quatro vezes mais frequente em mulheres e apresente maior incidência na adolescência, início da vida adulta e meia-idade, a doença pode surgir em qualquer fase da vida. Também é comum que pacientes apresentem outras doenças autoimunes associadas, como tireoidite, doença celíaca, diabetes tipo 1 e vitiligo. “Contudo, homens e idosos também adoecem, e não é raro que o diagnóstico nesses grupos demore justamente porque não se pensa na hipótese. Deve-se considerar a hepatite autoimune diante de qualquer alteração hepática inexplicada, independentemente do sexo e da idade”.
O Julho Amarelo representa uma oportunidade para ampliar o olhar sobre a saúde do fígado e reforçar que nem toda doença hepática está relacionada às hepatites virais. Embora a vacinação contra a hepatite B e os avanços no tratamento da hepatite C sejam importantes conquistas da saúde pública, especialistas lembram que o fígado também pode ser comprometido por fatores metabólicos, consumo de álcool, uso de medicamentos e doenças autoimunes. Nesse cenário, alterações persistentes nas enzimas hepáticas nunca devem ser ignoradas, mesmo na ausência de sintomas.
“Não se deve ignorar um exame de sangue que mostre enzimas do fígado alteradas, ainda que não existam sintomas, pois o fígado adoece calado. Deve-se buscar avaliação especializada diante de qualquer alteração sem explicação clara. A hepatite autoimune, quando diagnosticada cedo e tratada corretamente, tem excelente controle e evita a evolução para cirrose. O maior inimigo aqui não é a doença em si, mas o diagnóstico tardio. Julho Amarelo é o convite para olharmos o fígado por inteiro”, conclui a gastro-hepatologista.

