Especialista alerta que perda da voz após semanas de shows, torcidas e excesso de gritos não deve ser encarada como algo normal
O último forró já acabou, os bares voltaram ao ritmo habitual e a Seleção Brasileira deixou a Copa do Mundo. Mas, para muita gente, uma lembrança dos últimos dias continua presente: a rouquidão. Depois de semanas de festas juninas, grandes shows, comemorações, gritos durante os jogos e noites mal dormidas, é comum encontrar pessoas que seguem com a voz falhando, sensação de garganta irritada, pigarro constante e até dificuldade para falar. Embora esses sintomas sejam frequentemente tratados como uma consequência passageira da diversão, especialistas alertam que eles podem representar um sinal de sobrecarga importante das pregas vocais.
Segundo a fonoaudióloga Carolina Pamponet, especialista em voz profissional e preparadora vocal de artistas há mais de duas décadas, perder a voz após um período de uso intenso não deve ser encarado como algo normal. “Rouquidão é um sintoma, nunca um estado natural da voz. Quando ela aparece, significa que as pregas vocais sofreram algum grau de irritação ou sobrecarga. Em muitos casos, alguns dias de repouso são suficientes para a recuperação. Mas, quando os sintomas persistem, é preciso investigar”, afirma.
As últimas semanas reuniram praticamente todos os fatores conhecidos por prejudicar a saúde vocal. Conversas prolongadas em ambientes barulhentos, gritos durante os jogos da Copa, noites de forró, consumo de bebidas alcoólicas, pouca ingestão de água, alimentação desregulada, privação de sono, exposição à fumaça das fogueiras e mudanças bruscas de temperatura criaram um cenário propício para inflamações da laringe. “Durante as festas, as pessoas quase sempre falam mais alto para vencer o barulho, gritam para comemorar um gol ou acompanham os cantores durante horas. Tudo isso gera um impacto repetitivo nas pregas vocais”, explica Carolina Pamponet, diretora da Fonoclin em Feira de Santana (BA) e integrante do corpo clínico da Otorrino Center em Salvador.
Se os exageros já deixaram a voz fragilizada, a chegada do inverno pode prolongar ou agravar o problema. Nesta época do ano, aumentam os casos de gripes, resfriados, crises alérgicas e infecções respiratórias, além do uso frequente de ambientes climatizados. Todos esses fatores favorecem o ressecamento das vias aéreas e aumentam o esforço necessário para falar. “A mucosa da laringe precisa estar bem hidratada para que as pregas vocais vibrem com facilidade. Quando há ressecamento ou inflamação, a voz perde qualidade e exige muito mais esforço”, explica a especialista.
Como recuperar a voz depois dos exageros?
A boa notícia é que, na maioria dos casos, algumas medidas simples ajudam o organismo a se recuperar. Entre as principais recomendações estão aumentar a ingestão de água ao longo do dia; reduzir o uso da voz por alguns dias, evitando conversas longas, gritos e sussurros; dormir adequadamente para favorecer a recuperação dos tecidos; evitar cigarros, bebidas alcoólicas e alimentos que favoreçam o refluxo; utilizar inalação com soro fisiológico para melhorar a hidratação das vias aéreas, quando indicado; e procurar avaliação especializada se a rouquidão durar mais de duas semanas. “Um erro muito comum é tentar compensar a rouquidão falando mais alto ou pigarreando repetidamente. Isso aumenta ainda mais o atrito entre as pregas vocais e pode agravar o quadro”, alerta a fonoaudióloga.
Mesmo após o fim das festas, alguns cuidados devem fazer parte da rotina. Os especialistas recomendam manter hidratação constante, evitar mudanças bruscas de temperatura, não direcionar o ar-condicionado para o rosto, controlar o volume da voz em ambientes ruidosos, fazer pausas durante longos períodos de fala e procurar atendimento ao perceber alterações persistentes. Para quem utiliza a voz como instrumento de trabalho (como professores, jornalistas, advogados, palestrantes, profissionais de telemarketing, líderes religiosos e cantores), esses cuidados tornam-se ainda mais importantes.
Quando é hora de procurar ajuda?
Segundo Carolina Pamponet, existe um sinal que nunca deve ser ignorado: “Se a rouquidão permanecer por mais de 15 dias, principalmente sem relação com um resfriado, é fundamental procurar um otorrinolaringologista e um fonoaudiólogo especializado em voz. O diagnóstico precoce permite identificar desde inflamações simples até lesões nas pregas vocais e, em situações mais raras, doenças mais graves.”. Ela lembra que a voz é um patrimônio da comunicação humana e merece atenção durante todo o ano. “Assim como cuidamos do coração depois dos excessos na alimentação, também precisamos cuidar da voz depois dos excessos na comunicação. A recuperação começa com pequenas mudanças de hábito e, quando necessário, com acompanhamento especializado”, finaliza a especialista.

