Há ambientes que impressionam pela estética. Outros, pela escolha dos materiais ou pelo desenho do mobiliário. Mas existem aqueles que permanecem na memória porque despertam algo muito mais profundo: a lembrança de quem somos.
Foi essa a sensação que acompanhou a equipe do Fato Bahia ao visitar o ambiente “Legado que Habita”, assinado pela arquiteta Mally Requião na CASACOR Bahia 2026. Mais do que um ambiente sofisticado, o projeto é um convite para revisitar a própria história.
Inspirado na figura do avô da arquiteta, o espaço transforma memórias íntimas em linguagem arquitetônica. O resultado é uma composição delicada, onde cada objeto deixa de cumprir apenas uma função estética para assumir o papel de guardião de afetos.
“Quando descobrimos que o tema da CASACOR seria Mente e Coração, associei imediatamente ao meu avô. Ele era a pessoa mais mente e coração que conheci: tinha um coração do tamanho do mundo e uma mente à frente do seu tempo. Não havia como ele não ser o centro do conceito”, conta Mally.
A partir dessa percepção, a arquiteta recordou os antigos gabinetes que o avô mantinha no interior e compreendeu que aquele ambiente precisava ser, antes de tudo, uma homenagem.
Arquitetura que preserva histórias
Em um tempo marcado pelo consumo acelerado e pela constante substituição de objetos, “Legado que Habita” segue um caminho oposto: valoriza aquilo que permanece.
O projeto reúne peças que fizeram parte da vida da família da arquiteta e que carregam lembranças construídas ao longo de décadas. A seleção não aconteceu por valor material, mas pelo significado de cada elemento.
“A curadoria foi acontecendo a partir do essencial, daquilo que não podia faltar. As palavras cruzadas, por exemplo, dizem muito sobre os meus avós. Desde que me entendo por gente, eles faziam palavras cruzadas juntos. Aquela referência precisava estar no ambiente porque fala sobre quem eles eram.”
Entre todas as peças, uma possui um significado especialmente íntimo.
“Os sapatos do meu avô são o objeto mais especial. Tenho lembranças muito fortes dele usando aquele sapato de couro. Hoje ele faz parte do acervo da minha casa e foi emprestado para esse ambiente.”
O oratório que traduz pertencimento
Um dos pontos mais emocionantes do gabinete é o oratório contemporâneo, onde esculturas sacras em terracota ocupam um nicho revestido em pedra natural.
Foi justamente esse espaço que mais chamou a atenção da reportagem do Fato Bahia.
As imagens, produzidas pelo artesão Rosalvo, de Maragogipinho, nasceram especialmente para o ambiente em uma parceria com o Artesanato da Bahia. Mas a escolha vai muito além da estética.
“Meus avós eram muito católicos. O oratório já era uma condicionante do projeto e imediatamente pensei nos santos porque meu pai e meus tios têm nomes de santos. A combinação fazia todo sentido.”
Assim, o elemento religioso ganha uma segunda camada de leitura: torna-se também um retrato simbólico da própria família.
Não se trata apenas de representar a fé, mas de eternizar uma genealogia afetiva.
Quando um objeto se torna patrimônio
Para Mally, uma peça antiga só alcança verdadeiro valor quando carrega significado. “Quando ela representa algo dentro de um contexto, deixa de ser apenas um objeto e passa a ser patrimônio.”
É justamente essa compreensão que orienta sua arquitetura. “Eu acredito muito que os espaços são pertencimento. Minha arquitetura é afetiva porque fala sobre história, família e conexão. A arquitetura pode preservar memórias e trazer referências muito fortes da nossa trajetória.”
Essa visão também aparece em seus projetos residenciais. Segundo ela, sempre procura descobrir quais objetos os moradores não abrem mão de manter. “Muitas vezes é uma louça da avó, um quadro que foi do pai, uma lembrança de viagem, detalhes do casamento. Vamos construindo essas memórias dentro do projeto para que a casa conte a história de quem mora nela.”
Para integrar essas peças à linguagem contemporânea, a arquiteta aposta na composição. “O clássico e o contemporâneo podem conversar perfeitamente. Às vezes basta uma iluminação especial, um suporte em acrílico ou uma base mais neutra para que aquele objeto ganhe protagonismo sem perder a elegância.”
Uma viagem ao passado
Talvez o maior mérito de “Legado que Habita” seja provocar uma reação que vai além da contemplação. Quem entra no ambiente dificilmente permanece apenas observando móveis, revestimentos ou objetos, acaba inevitavelmente buscando, na própria memória, uma lembrança parecida.
“Eu espero que as pessoas lembrem dos seus avós, de alguém querido. Que sintam conforto e pertencimento. Tem acontecido muito isso. As pessoas olham para as cartinhas sobre a mesa, para o oratório, para o gabinete, e imediatamente começam a falar das próprias histórias.”
É uma arquitetura que emociona porque não pretende contar apenas a história de Mally Requião, sua memória funciona como ponto de partida para despertar a memória de quem visita.
“A emoção que eu queria provocar era justamente essa conexão, esse afeto, essa saudade boa. Minha história é apenas o início dessa viagem no tempo. O mais bonito é ver cada visitante encontrando, ali dentro, um pouco da sua própria história.”
Na CASACOR Bahia 2026, onde criatividade, técnica e inovação dividem espaço com tendências de morar, “Legado que Habita” lembra que nenhuma tecnologia substitui aquilo que faz uma casa ser verdadeiramente inesquecível: as histórias que escolhemos preservar. É nesse encontro entre arquitetura e memória que Mally Requião entrega um dos ambientes mais sensíveis e autênticos desta edição da mostra.

