quinta-feira, outubro 29, 2026
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TDAH na infância: como a neuropsicopedagogia pode ajudar crianças a desenvolver suas potencialidades

Acompanhamento individualizado e parceria entre família e escola podem favorecer a aprendizagem, a autonomia e a autoestima de crianças com o transtorno.

Manter a atenção durante uma explicação, organizar as tarefas e concluir uma atividade escolar. Situações aparentemente simples podem representar desafios para crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Essas dificuldades, porém, não significam falta de inteligência ou incapacidade de aprender. Com acompanhamento adequado, é possível desenvolver habilidades e ampliar as potencialidades de cada criança.

O TDAH pode afetar funções executivas importantes para a aprendizagem, como planejamento, concentração, memória de trabalho, controle dos impulsos e regulação emocional. No ambiente escolar, essas características podem se manifestar quando o estudante perde parte da explicação do professor, distrai-se com estímulos ao redor ou encontra dificuldade para seguir instruções com várias etapas.

Segundo a neuropsicopedagoga Tanea Rios, do AMPARAR – Núcleo de Desenvolvimento Integrado, essas funções são fundamentais para a maneira como a criança recebe, organiza e expressa o conhecimento.

Quando entender não significa conseguir fazer

Uma criança pode compreender o conteúdo apresentado em sala de aula e, ainda assim, ter dificuldade para concluir os exercícios. Em alguns casos, o obstáculo não está no entendimento da matéria, mas na organização das etapas necessárias para executar a tarefa.

Isso pode estar relacionado à memória de trabalho, responsável por manter e manipular informações temporariamente durante a realização de uma atividade.

“Ela lembra que precisa folhear o livro, porém esqueceu quais eram os números ou até mesmo o próximo passo, provocando a sensação de um bloqueio”, explica Tanea.

O resultado aparece na rotina escolar, com instruções esquecidas, atividades incompletas e dificuldades para organizar o que precisa ser feito. Tarefas longas, repetitivas ou que exigem esforço mental contínuo também podem dificultar a manutenção do foco.

Nem todas as crianças com TDAH, entretanto, apresentam as mesmas dificuldades. Algumas mantêm um bom desempenho acadêmico, embora precisem fazer um esforço maior para sustentar a atenção.

Também é importante investigar a possibilidade de outras condições que afetam a aprendizagem, como dislexia e discalculia. A identificação correta das dificuldades ajuda a direcionar o acompanhamento e evita que necessidades distintas sejam tratadas da mesma maneira.

Como a neuropsicopedagogia pode ajudar

Compreender como cada criança aprende é um dos caminhos para construir intervenções adequadas às suas necessidades. Nesse processo, a neuropsicopedagogia busca identificar dificuldades e potencialidades relacionadas à atenção, à memória, à linguagem e às funções executivas.

O acompanhamento pode incluir atividades individualizadas, jogos educativos, recursos visuais e organização das tarefas em etapas menores. A proposta é favorecer a compreensão dos conteúdos, a autonomia e a confiança da criança, respeitando seu ritmo de aprendizagem.

“Com estratégias individualizadas, atividades adequadas às suas necessidades e feedback positivo, essa criança pode desenvolver uma maior autonomia, segurança para enfrentar desafios e motivação”, destaca a especialista.

O papel da família e da escola

O desenvolvimento das potencialidades não depende apenas do acompanhamento especializado. A maneira como os adultos organizam a rotina e lidam com as dificuldades também influencia a experiência da criança.

Em casa, estabelecer horários previsíveis, preparar um ambiente de estudos com menos distrações e alternar períodos de concentração com pequenas pausas pode facilitar a realização das tarefas. Reconhecer os avanços, em vez de valorizar exclusivamente notas e resultados, também ajuda a fortalecer a confiança.

A orientação é evitar comparações e rótulos como “preguiçoso” ou “desatento”. Quando a criança resiste a uma atividade, é importante investigar o motivo antes de interpretar o comportamento como desobediência. A tarefa pode estar extensa, confusa ou difícil de executar naquele momento.

Na escola, instruções claras, redução de estímulos distratores e adequações na apresentação dos conteúdos podem favorecer a participação do estudante. A comunicação entre professores, família e profissionais que acompanham a criança permite alinhar objetivos e identificar as necessidades de apoio.

Sinais que merecem atenção

Dificuldades escolares persistentes precisam ser observadas com cuidado, especialmente quando comprometem a autonomia, a socialização e a autoestima da criança.

Esquecimentos recorrentes, perda frequente de materiais, dificuldade para iniciar ou concluir tarefas e problemas de organização são alguns dos sinais que podem justificar uma investigação mais aprofundada.

Também merecem atenção reações intensas de frustração diante das atividades escolares, ansiedade relacionada à escola e queixas frequentes antes de ir às aulas, como dores de cabeça ou de barriga. Esses sinais podem ter diferentes causas e devem ser avaliados considerando o contexto de cada criança.

Conforme as necessidades identificadas, o acompanhamento pode envolver profissionais como neuropediatra, psiquiatra infantil, psicólogo, neuropsicólogo, neuropsicopedagogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional.

A neuropsicopedagogia pode contribuir para compreender e trabalhar questões relacionadas à aprendizagem, mas não substitui a avaliação médica necessária ao diagnóstico do TDAH nem os demais acompanhamentos indicados para cada caso.

Muito além do diagnóstico

Para Tanea Rios, reconhecer as capacidades da criança é parte fundamental do processo. O diagnóstico não resume quem ela é, nem determina sozinho o que poderá aprender ou conquistar.

“Uma criança com TDAH é muito mais do que suas dificuldades de atenção, impulsividade ou organização. Ela é um ser cheio de possibilidades, talentos, criatividade e capacidade de aprender”, afirma.

A especialista reforça que cada criança pode precisar de caminhos e tempos diferentes para aprender. Por isso, acolhimento, orientação e respeito às características individuais são fundamentais para que ela desenvolva suas habilidades sem ser definida pelas dificuldades que enfrenta.

“O papel da família e dos professores não é exigir que todas aprendam da mesma forma, mas criar condições para que cada uma possa aprender, crescer e descobrir tudo aquilo de que é capaz”, conclui.

Sobre a especialista

Tanea Rios é Terapeuta Ocupacional, licenciada em História, Psicopedagoga Clínica e institucional e Neuropsicopedagoga. Possui formação em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), psicomotricidade e psicanálise clínica e infantil, além de outras especializações. Fundadora do AMPARAR – Núcleo de Desenvolvimento Integrado.

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