terça-feira, outubro 20, 2026
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Casos de AVC crescem mais de 30% na Bahia em cinco anos; reabilitação é decisiva para reduzir sequelas

Internações pela doença subiram 33% entre 2020 e 2025, segundo o DataSUS; paciente e especialista explicam o papel da reabilitação na volta da autonomia

As internações por Acidente Vascular Cerebral (AVC) cresceram muito na Bahia nos últimos anos. Segundo dados do DataSUS, os registros da doença, somando os casos isquêmicos e hemorrágicos, subiram 33% entre 2020 (13.802) e 2025 (18.334). A alta continua em2026: de janeiro a julho, foram 10.211 casos no estado, 31% a mais que no mesmo período de 2021 (7.787), cinco anos antes. A maior parte dos pacientes é formada por homens (51%), e a faixa etária mais atingida é a de 70 a 79 anos (32%).

O assunto ganha ainda mais destaque neste mês de outubro, quando são celebrados o Dia Mundial do Acidente Vascular Cerebral e Dia Nacional de Prevenção ao AVC, ambos no dia 29. A doença acontece quando o fluxo de sangue para uma área do cérebro é interrompido,por obstrução de um vaso (isquêmico), ou quando um vaso se rompe (hemorrágico). As sequelas podem ser graves e atingir movimentos, fala, sensibilidade, visão, cognição e emoções.

“O AVC é uma emergência médica em que cada minuto conta. Quanto mais rápido o paciente recebe atendimento, maiores são as chances de limitar a área do cérebro afetada e, portanto, as sequelas. Por isso é tão importante reconhecer os sinais, como boca torta,fraqueza em um lado do corpo e dificuldade para falar, e procurar ajuda imediatamente”, alerta Luana Amorim, médica neurologista da Florence, o primeiro Hospital de Transição do Norte e Nordeste.

O enfermeiro Hebert Aguiar, de 41 anos, sabe bem o que é isso. Ele trabalhava em uma casa de acolhimento que hospeda pacientes que vêm a Salvador para fazer tratamentos médicos, cursava psicologia e fazia parte de um grupo de terapias comunitárias humanizadas,com rodas terapêuticas. “Tinha uma rotina muito agitada”, conta.

Em abril deste ano, Hebert teve um AVC isquêmico no lado esquerdo do cérebro. “Eu senti o braço formigando, ao mesmo tempo dormente, a boca estava torta, dificuldade para falar, para ficar em pé, dor na cabeça”, descreve. Ele passou mal sozinho em casa e sófoi socorrido quando o marido chegou. “Meu marido não conseguia me carregar. Eu tenho 1,85 m e pesava 90 kg, então cheguei no hospital de cadeira de rodas e fui logo para a sala vermelha”, lembra. Segundo os médicos, por causa da demora no atendimento, nãohavia como reverter as sequelas, que atingiram o lado direito do corpo: fala, locomoção, braço, perna e rosto. “Quando soube que era um AVC, a minha ficha não caiu. Fiquei sem reação”, diz.

Foram cinco dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e quase 15 dias de internação. “Na UTI, eu não conseguia falar. Só voltei a me comunicar um pouco, através de gestos, quando fui para a semi-UTI. Foi horrível”, relata. No hospital geral, o médico chegoua dizer à família que dificilmente ele voltaria a andar, mas o marido não duvidou: “Ele disse que eu iria vai voltar a andar”. Ao receber alta, Hebert seguiu a recuperação internado na Florence, “sem andar ainda, com o braço direito todo pra cima e sem falar”.

A importância da reabilitação

Especialistas são unânimes: a reabilitação é fundamental para devolver ao paciente o máximo de funcionalidade possível após um AVC. Ela deve começar o quanto antes e precisa de uma equipe multidisciplinar, com médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutasocupacionais, psicólogos e nutricionistas, entre outros profissionais.

“Nos primeiros meses depois do AVC, o cérebro tem uma capacidade maior de se reorganizar, o que chamamos de neuroplasticidade. Uma reabilitação intensiva e precoce aproveita essa janela e faz diferença real na recuperação dos movimentos, da fala e da independênciado paciente”, explica Luana Amorim.

Foi o que Hebert sentiu na prática: foi na Florence que ele voltou a andar. “A minha maior preocupação era não voltar a andar. E graças a Deus eu voltei a andar. Eu andava no quarto, na área de reabilitação, no jardim. Eu subia as escadas, andava nos corredores.Quando eu voltei a andar, eu andava o tempo todo”, relata.

A recuperação continua, mas a evolução é visível. “Hoje, eu estou bem, estou andando, faço as coisas em casa, lavo os pratos, faço comida. Uso uma órtese na perna direita que é importante para a minha mobilidade. Estou mais independente”, comemora.

Para o enfermeiro, a reabilitação foi fundamental, assim como a fé. “Eu sempre acreditei que eu ia voltar a andar. Eu sou uma pessoa muito religiosa e sempre acreditei na proposta divina”, resume. Agora, o plano é voltar a estudar e concluir o curso de psicologia.

A neurologista acrescenta que esse acompanhamento individualizado contribui com a prevenção de novos episódios da doença. “Quem já teve um AVC tem risco maior de ter um novo episódio. Por isso, além da reabilitação, é essencial controlar a pressão arterial,o colesterol e o diabetes, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física e fazer acompanhamento médico regular. Prevenção e reabilitação andam juntas”, reforça a Luana Amorim.

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