Sobrecarga entre trabalho, maternidade, família e autocobrança reforça a importância de reconhecer limites e dividir responsabilidades
A ideia de que a mulher precisa dar conta da carreira, da casa, dos filhos, dos relacionamentos e ainda encontrar tempo para cuidar de si continua presente na rotina de muitas brasileiras. Quando essa exigência se transforma em cobrança permanente, o resultado pode aparecer em forma de exaustão, culpa, irritabilidade, alterações no sono e dificuldade de estabelecer limites.
Dados do IBGE ajudam a dimensionar essa sobrecarga. Em 2022, as mulheres brasileiras dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. Entre as mulheres ocupadas, foram 17,8 horas semanais nessas atividades, além da jornada profissional.
Para a psicóloga Niliane Brito, o problema começa quando a mulher confunde a capacidade de exercer múltiplos papéis com a obrigação de dar conta de tudo. “Em alguns casos, essa autocobrança tem um custo muito alto: o esgotamento emocional. Reconhecer o próprio limite não diminui a sua competência, mas ajuda no cuidado consigo mesma”, explica.
A discussão ganha ainda mais importância quando observados os indicadores de saúde mental. Dados atualizados pela Organização Mundial da Saúde mostram que a depressão atinge proporcionalmente mais mulheres: em 2023, a estimativa global foi de 6,2% entre mulheres adultas, contra 4,1% entre homens. A OMS também aponta situações de estresse intenso entre os fatores associados a maior risco de desenvolver o transtorno.
Segundo Niliane, a autocobrança pode se somar à dificuldade de dividir tarefas, à ausência de uma rede de apoio e à culpa ao priorizar as próprias necessidades. “Há mulheres que mantêm hábitos saudáveis e dormem bem, mas continuam cansadas porque a mente não para de pensar e se preocupar com o que poderiam ter feito ou ainda precisam fazer”, pontua.
Estabelecer limites, buscar apoio e abandonar a expectativa de perfeição são caminhos para reduzir a sobrecarga. A psicóloga destaca que sinais persistentes de ansiedade, tristeza, alterações no sono, irritabilidade ou perda de interesse pelas atividades habituais não devem ser banalizados: são alertas para uma atenção maior à saúde emocional e para a importância do acompanhamento profissional.
“Cuidar de si não pode ocupar o último lugar na lista de prioridades. Aceitar compartilhar o peso das tarefas, quando possível, é olhar para si com mais gentileza. Reconhecer o que é inegociável e o que pode ser adiado ou cancelado também é um ato de autocuidado emocional”, conclui Niliane Brito.

