Curso prepara pessoas para a acompanhar alguém no processo final da vida
Quase todo mundo já fez, ou pelo menos já ouviu falar, de um curso de primeiros socorros. Saber o que fazer diante de um engasgo, um corte ou uma parada cardíaca virou conhecimento popular, ensinado em escolas, empresas e academias. Mas existe um momento davida para o qual quase ninguém é preparado: o fim dela.
E assim como não se aprende primeiros socorros esperando por uma emergência, os últimos socorros também não deveriam ser aprendidos às pressas, no meio de uma perda. Diante disso, o curso Últimos Socorros se propõe a preencher essa lacuna. Criado na Alemanhaem 2008 pelo médico intensivista Georg Bollig, como parte de sua pesquisa em Cuidados Paliativos, o curso já formou mais de 20 mil pessoas em 20 países e chegou ao Brasil em 2020. A partir deste ano, passou a ser ofertado em Salvador, através da Florence,hospital de transição, especializado em reabilitação e cuidados paliativos.
A proposta é simples: assim como aprendemos a agir diante de uma emergência, também podemos aprender a acompanhar alguém no processo final da vida. “O curso dá ferramentas concretas para que as pessoas saibam o que fazer nesta situação: como conversar sobredesejos de fim de vida antes que seja tarde, como aliviar o desconforto de quem está partindo, como lidar com o silêncio e com as despedidas. São coisas que geralmente a gente só aprende na prática, no meio da dor, mas pode aprender antes, com calma”, afirmaYanne Amorim, médica paliativista da Florence, hospital de transição.
Em um encontro em formato de roda de conversa, conduzido por facilitadores com vivência em cuidados paliativos, o curso aborda dos seguintes módulos: Morrer é parte da vida, Planejar e decidir, Aliviar o sofrimento e Despedidas. Ele não exige formação técnicanem experiência prévia e é aberto a qualquer pessoa que queira entender, com mais clareza e menos medo, o que é possível fazer diante do fim da vida de alguém querido.
“Enquanto a morte for um tabu, as famílias vão continuar decidindo no escuro, muitas vezes sem saber o que a pessoa gostaria, ou se sentindo culpadas por escolhas que nem eram delas para fazer. Falar sobre isso com antecedência é um ato de cuidado: dá autonomiapara o paciente expressar o que quer e dá segurança para a família”, acrescenta Yanne Amorim.
Os interessados em participar do curso podem se inscrever através do site ultimossocorros.com.br. Lá também é possível encontrar o calendário de turmas e mais informações sobre o projeto.
Um tema que voltou ao centro do debate
A discussão sobre cuidados no fim da vida ganhou ainda mais visibilidade nos últimos dias com a estreia do documentário Preta – Eu Não Ando Só, que reúne registros íntimos feitos pela cantora Preta Gil durante o tratamento de um câncer, até sua morte, em julho de 2025. A produção reacendeu uma conversa que muitas famílias evitam: como acolher, decidir e se despedir comdignidade quando a cura já não é mais o objetivo.
Para especialistas, é justamente esse tipo de repercussão cultural que ajuda a tirar os cuidados paliativos do tabu. “Falamos muito sobre como salvar uma vida, mas pouco sobre como cuidar bem de alguém até o fim dela. Os cuidados paliativos não tratam da mortecomo uma derrota, mas do alívio do sofrimento e da qualidade de vida possível em cada etapa. Quanto mais a sociedade conversar sobre isso com naturalidade, menos sozinhas as famílias vão se sentir na hora em que mais precisam de acolhimento”.

