Artigo mostra diferentes fenótipos clínicos, defendendo a investigação com imagem multimodal e testes imunológicos para reduzir atraso na definição do quadro clínico
Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), descreveu uma série de seis casos de tuberculose ocular com comprometimento do segmento posterior do olho, manifestações que podem ocorrer mesmo sem sinais evidentes da doença no pulmão e que, se não reconhecidas rapidamente, podem levar a complicações irreversíveis e perda visual.
Os autores analisaram pacientes imunocompetentes, todos homens, com idades entre 28 e 46 anos, atendidos em um contexto de alta prevalência de tuberculose. O estudo chama atenção para a heterogeneidade das apresentações clínicas, visto que os casos incluíram granulomas coroideanos com inflamação do nervo óptico (inflamação do nervo óptico), coriorretinite multifocal (inflamação que atinge a camada abaixo da retina), coroidite serpiginosa-like (lesões na região central da visão) e vasculite retiniana oclusiva (inflamação nos vasos sanguíneos da retina). Alguns casos evoluíram para hemorragia, cicatrizes e até descolamento de retina.
Como a confirmação microbiológica da tuberculose ocular é frequentemente difícil, os pesquisadores destacam que o diagnóstico costuma ser presuntivo, sustentado por um conjunto de evidências que incluem testes imunológicos como PPD (TST) e/ou IGRA, exames de imagem ocular (como OCT e angiografia) e, principalmente, a resposta clínica ao tratamento. No estudo, todos os pacientes eram HIV-negativos, e quatro tinham histórico de encarceramento, um fator epidemiológico relevante em contextos de maior vulnerabilidade.
Embora a tuberculose seja tradicionalmente associada ao pulmão, a pesquisa reforça que a doença pode se manifestar de forma ocular mesmo quando o acometimento pulmonar é ausente ou discreto. Em alguns casos, a tomografia de tórax mostrou alterações como nódulos ou cavitações, mas isso não esteve presente em todos os pacientes. Essa ausência de sinais respiratórios, segundo os autores, pode atrasar a suspeita clínica e, consequentemente, o início do tratamento.
“A combinação de exames de imagem multimodal e testes imunológicos são essenciais, garantindo assertividade mesmo na ausência de focos pulmonares ativos. Por isso, é importante integrar olhar clínico, epidemiologia e exames de suporte para reduzir subdiagnóstico, principalmente em regiões endêmicas. A suspeita precoce, somada ao tratamento adequado, pode significar a diferença entre recuperação funcional e perda visual irreversível”, afirma a Dra. Luciana Finamor, coautora do estudo, docente da Unifesp e oftalmologista da Clínica de Olhos Moacir Cunha — marca do Grupo Fleury, detentor da Diagnoson a+ na Bahia.
Todos os pacientes foram tratados com o esquema padrão RIPE (rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol), associado a corticosteroide oral em redução gradual nas primeiras semanas. Na maioria dos olhos, houve controle da inflamação até cerca de nove meses, com desfechos visuais variando em casos com doença controlada, até melhora limitada nas pessoas em que já havia cicatriz macular, isquemia extensa ou descolamento de retina. “O estudo também alerta para complicações que exigem vigilância, pois um dos casos evoluiu com neovascularização coroideana secundária, enquanto outro apresentou piora após não seguir o esquema inicialmente indicado, com necessidade de cirurgia (vitrectomia) e recuperação visual parcial”, conta a médica.
Em países como o Brasil, em que a prevalência da tuberculose é significativa, a investigação oftalmológica minuciosa é uma peça-chave para identificar a infecção extrapulmonar em pacientes imunocompetentes. “A conclusão deste artigo altera o manejo clínico ao validar que o início precoce do tratamento antituberculose, associado à vigilância constante contra complicações, é um fator determinante para reverter quadros de perda visual e evitar sequelas visuais graves”, conclui a Dra. Luciana.
A pesquisa Chasing shadows: case series of six posterior segment manifestations of ocular tuberculosis foi publicada na revista científica AME Case Reports: https://acr.amegroups.org/article/view/12117/html.

