Escrito Por Juliana Sato, psicóloga especializada em vínculo humano-animal
A discussão sobre crueldade animal costuma se organizar em torno de denúncia, legislação e responsabilização, o que é necessário, mas não suficiente para dar conta da complexidade do problema. Ainda se fala pouco sobre os efeitos que essa violência produz nas pessoas, especialmente em um contexto em que os animais ocupam lugares diversos nas relações humanas, seja como membros da família, seja em dinâmicas comunitárias ou na vida urbana compartilhada. Reduzir a crueldade a um ato que incide apenas sobre o animal limita a compreensão do fenômeno e obscurece o que se desdobra a partir dele.
Quando há violência, não se rompe apenas a vida do animal, mas também o campo relacional que se constrói ao redor dele. Esse ponto é frequentemente negligenciado porque ainda operamos com uma noção restrita de vínculo, baseada em critérios formais de posse ou convivência direta, o que não corresponde à experiência concreta de muitas pessoas. Há relações que se estabelecem no cotidiano, no cuidado compartilhado ou na simples presença reiterada de um animal no território e que, quando interrompidas por uma situação de crueldade, produzem efeitos que nem sempre são reconhecidos ou legitimados.
A perda, nesses casos, tende a ser atravessada por elementos que não se organizam da mesma forma que em processos mais previsíveis, como o envelhecimento ou o adoecimento. A violência introduz uma ruptura que desestabiliza a forma como a experiência pode ser simbolizada, porque associa a ausência à injustiça, à falha de proteção e à impotência. Essa combinação altera a qualidade do luto e pode dificultar sua elaboração, sobretudo quando não há espaço social para que esse sofrimento seja nomeado. O que se observa, então, não é apenas dor, mas uma dor sem reconhecimento, o que se aproxima do que a literatura descreve como luto não legitimado, ainda que, na prática, essa experiência apareça muito mais como silêncio do que como conceito.
Esse mesmo mecanismo de invisibilização aparece também no campo profissional. A atuação em contextos de crueldade animal costuma ser enquadrada prioritariamente por sua dimensão técnica, como se o domínio clínico fosse suficiente para absorver o impacto dessas situações. No entanto, a exposição repetida à violência, à negligência e a decisões difíceis não é emocionalmente neutra e produz efeitos que, muitas vezes, permanecem sem elaboração. Em alguns casos, esse impacto pode assumir a forma de um luto vicário, quando a dor, a perda e a violência vividas pelo outro passam a incidir de maneira cumulativa sobre quem cuida, socorre ou acompanha esses casos de forma contínua. Nomear esse processo é importante porque rompe com a ideia de que o sofrimento do profissional seria apenas um efeito colateral esperado do trabalho e ajuda a compreender que essa exposição também tem custo psíquico.
Quando esse impacto é naturalizado como parte da rotina, cria-se uma lógica em que o sofrimento deixa de ser reconhecido como algo que demanda cuidado e passa a ser tratado como um custo implícito da atuação. O problema é que aquilo que não encontra linguagem, espaço de elaboração ou enquadramento institucional tende a se acumular de forma silenciosa, ampliando desgaste, exaustão e sensação de isolamento entre profissionais que atuam justamente em contextos de alta exigência emocional.
Há ainda um outro nível de impacto que tende a permanecer difuso, relacionado a quem presencia ou toma conhecimento dessas situações sem necessariamente ocupar um lugar de cuidado direto. A experiência de contato com a violência pode mobilizar angústia, raiva e sensação de impotência, especialmente quando não há resposta efetiva ou quando os caminhos institucionais se mostram lentos e desgastantes. Nesse cenário, a denúncia, embora fundamental, não elimina o custo emocional envolvido, o que reforça a necessidade de considerar não apenas os mecanismos de responsabilização, mas também as formas de sustentação psíquica de quem se vê implicado nessas situações.
Além disso, compreender a crueldade animal como um evento isolado significa ignorar um aspecto amplamente documentado, que é sua associação com outras formas de violência. A literatura descreve de maneira consistente a relação entre maus-tratos a animais e violência interpessoal, o que desloca a discussão para um campo mais amplo e exige abordagens que não se restrinjam ao âmbito da proteção animal. Esse dado não amplia o problema de forma abstrata, mas redefine seu enquadramento, indicando que estamos diante de um fenômeno que atravessa relações, contextos familiares e dinâmicas sociais mais complexas.
Diante disso, tratar o mês de prevenção à crueldade animal apenas como um momento de sensibilização ou de reforço das leis existentes tende a simplificar excessivamente a questão. Embora essas iniciativas sejam importantes, elas não contemplam o conjunto de efeitos produzidos por essa violência, especialmente aqueles que permanecem menos visíveis e menos nomeados. Incorporar essa dimensão não significa deslocar o foco do sofrimento animal, mas reconhecer que ele se insere em uma rede de impactos que inclui pessoas, vínculos e contextos que continuam operando mesmo depois que o evento em si já passou.
Se a proposta for avançar na prevenção, é necessário ampliar o modo como o problema é compreendido, incluindo não apenas a tentativa de conter a violência, mas também o reconhecimento das marcas que ela deixa e das condições necessárias para que essas experiências possam ser elaboradas. Sem isso, parte importante do que sustenta a continuidade do problema permanece fora do campo de intervenção.
Juliana Sato é psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, com pós-graduação em Distúrbios Alimentares pela Unifesp, Juliana Sato é certificada pela renomada Association for Pet Loss and Bereavement, entidade pioneira e referência em luto pet nos Estados Unidos. A especialista vem se destacando desde 2023 em consultoria e atendimento em saúde mental de profissionais do segmento pet vet, além de mentorias para empresas e líderes na construção de culturas organizacionais mais humanas, seguras e sustentáveis. Desde 2024, faz parte da diretoria da Ekôa Vet – Associação Brasil eira em Prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária. Para ajudar pessoas que buscam equilíbrio emocional e crescimento pessoal, criou o canal VibeZenCast, no qual compartilha conteúdos sobre saúde mental, autocuidado e bem-estar. Juliana também é uma das organizadoras do recém-lançado livro “Luto Pet no Contexto da Medicina Veterinária”, pela Editora Lucto, onde aborda a complexidade do assunto e debate a saúde mental no universo pet. Saiba mais acessando o site julianasatopsicologa.com.br ou o perfil no Instagram @jusatopsicologa.

