Não é novidade que um trauma pode mudar o comportamento de uma criança, mas para além disso, situações traumáticas como abandono e rejeição, podem mudar o funcionamento cerebral dos pequenos que foram adotados. Esse fato reflete diretamente no desenvolvimento psíquico deles e pode afetar várias fases da vida.
As dificuldades emocionais, de atenção, de aprendizagem e de autorregulação não são escolhas, nem falta de esforço, e em muitos casos nem herança genética da família biológica, é um comportamento adaptativo. Mas como notar que houve uma mudança no funcionamento do cérebro de uma criança adotada?
A psicóloga e especializada em adoção, Aline Santana, explica que uma criança que passou por traumas apresenta uma espécie de desequilíbrio de idades. “Isso significa que a sua idade emocional, sua idade cognitiva, e muitas vezes a sua estrutura corporal não corresponde à sua idade cronológica. Apesar do trauma modificar o funcionamento cerebral, esse mau funcionamento tem impacto em diversas áreas do desenvolvimento. Muitas vezes uma criança de nove anos de idade, não consegue se regular emocionalmente, nem ter o controle dos impulsos que já é esperado para essa idade”.
De acordo com a profissional, o cérebro desenvolve da parte mais primitiva para a parte mais aprimorada, fazendo conexões através das sinapses que são possíveis por meio da relação com o cuidador. É como se o órgão tivesse três andares e que para subir esses andares as escadas são construídas através dessas relações saudáveis com quem cuida, tudo isso vai integrando esses andares do cérebro possibilitando um desenvolvimento sadio.

“Quando uma experiência traumática acontece, o cérebro entende que precisa se proteger das ameaças, então a criança necessita usar todos os recursos para se manter viva. Se esse trauma é relacional, ou seja, causado por quem deveria ser o protetor, além dos poucos recursos não há nenhuma pessoa disponível a ajudá-la a construir essa escada que vai dar continuidade ao seu desenvolvimento, ela acaba sendo prejudicada em diversas funções cerebrais e corporais. Sendo o cérebro um órgão que funciona tal qual o músculo, experiências traumáticas constantes e repetidas podem gerar um funcionamento cerebral adaptado ao trauma, de forma que as sinapses podem ser construídas para que possa se adaptar à vivência a aquele ambiente hostil”, esclareceu.
Aline também explicou que quando o cérebro de uma criança ativa o modo sobrevivência, isso acaba mudando o comportamento dela. A parte do cérebro que detecta a ameaça, por exemplo, começa a detectar risco mesmo que não exista um perigo iminente, isso faz com que a criança fique sempre hipervigilante a tudo que acontece no seu ambiente. Como consequência disso ela pode ficar desatenta, ter problemas de concentração e ter reações emocionais desproporcionais aos eventos.
A boa notícia é que é possível diminuir os impactos causados pelos traumas vividos pelos pequenos e Aline conta de que forma isso pode acontecer. “Assim como o trauma se cria na relação, é possível amenizar os impactos também com uma relação. A primeira coisa que a gente precisa fazer com uma criança que vivencia o trauma e tem o modo de sobrevivência ligado o tempo inteiro, é justamente estabelecer um ambiente seguro e isso nós fazemos nos tornando uma figura de referência e de vínculo para ela. Um outro ponto importante é entender que se essa criança não se desenvolveu adequadamente, nós precisamos dar a ela o que ela precisa de acordo com a sua idade de desenvolvimento que em muitos casos é diferente da sua idade cronológica
Foto de Aline – Arquivo Pessoal
Foto da criança – Reprodução Gratuita/Freepik/Ilustrativa

