Prejuízos à saúde vocal durante este período do ano são grandes e especialista explica como proteger a voz em meio a shows, festas e comemorações.
O mês de junho transforma o Nordeste em um imenso palco a céu aberto. Enquanto milhares de pessoas percorrem cidades em busca de shows, quadrilhas e tradições juninas, artistas do forró enfrentam uma verdadeira maratona para cumprir agendas que chegam a reunir dezenas de apresentações em poucas semanas. Em um único dia, não é raro que cantores se apresentem em diferentes cidades, enfrentando viagens de madrugada, mudanças bruscas de temperatura, alimentação irregular, poucas horas de sono e longos períodos de uso intenso da voz. O resultado é um desgaste que nem sempre aparece para o público, mas que pode comprometer seriamente a saúde vocal.
“Quando o público vê o artista no palco, muitas vezes não imagina que ele já cantou em outras cidades no mesmo dia ou que passou horas em deslocamento. A voz é submetida a uma exigência extrema durante esse período”, explica a fonoaudióloga Carolina Pamponet, especialista em voz profissional e preparadora vocal de artistas de alta performance há mais de 20 anos. Segundo ela, que acompanha proximamente cantores durante festejos juninos, Carnaval e turnês, a combinação entre esforço vocal, desidratação, alterações na rotina e privação de sono cria um cenário propício para fadiga vocal, rouquidão, inflamações e até lesões nas pregas vocais.
Ao contrário do que muitos imaginam, o maior inimigo da voz nem sempre é o show em si. Os problemas costumam surgir pela soma de fatores que acompanham a rotina dos festejos. Conversar em ambientes extremamente barulhentos, cantar por horas seguidas, dormir pouco, ingerir bebidas alcoólicas e enfrentar mudanças constantes de clima fazem parte do cotidiano dos artistas durante o período junino. Além disso, a exposição à fumaça de fogueiras e fogos de artifício pode irritar diretamente a laringe e as vias respiratórias. “Todo esse ambiente contém substâncias irritantes que provocam ardência, tosse, pigarro e rouquidão e pessoas com alergias, rinite, sinusite ou asma costumam sofrer ainda mais nessa época”, destaca Carolina Pamponet, que integra o Núcleo de Atendimento Especializado em Voz da Otorrinocenter em Salvador e é diretora da Fonoclin em Feira de Santana (BA).
Outro problema frequente é o chamado efeito Lombard, um mecanismo automático e inconsciente que faz as pessoas elevarem a intensidade da voz para serem ouvidas em ambientes ruidosos. “Em festas juninas, shows e eventos com muito barulho, as pessoas acabam falando cada vez mais alto sem perceber. Quando isso acontece durante várias horas seguidas, surge a fadiga vocal”, explica.
Mas, segundo a fonoaudióloga, não são apenas os artistas que correm riscos e os cuidados não devem ficar restritos aos profissionais da música, pois milhões de brasileiros passam horas em arraiais, bares, festas particulares e eventos públicos, muitas vezes repetindo hábitos semelhantes aos dos artistas: falam alto, gritam, cantam, consomem bebidas alcoólicas, dormem pouco e negligenciam a hidratação. O resultado aparece nos dias seguintes através da rouquidão, perda temporária da voz, dor ao falar e sensação de garganta irritada. “Existe uma falsa percepção de que perder a voz depois de uma festa é normal. Na verdade, a rouquidão é um sinal de que houve sobrecarga vocal e merece atenção”, alerta a preparadora vocal.
Copa do Mundo amplia os riscos
Neste ano, um ingrediente extra promete aumentar ainda mais a demanda vocal: a Copa do Mundo. A expectativa pelo sonhado Hexacampeonato faz com que milhões de brasileiros se reúnam em bares, arenas, festas e eventos para acompanhar os jogos da Seleção Brasileira, criando uma combinação divertida, porém explosiva, entre São João, shows e torcida – isso porque a emoção das partidas costuma levar as pessoas a gritarem muito acima do seu limite habitual.
“Durante os jogos, o entusiasmo faz com que muitos utilizem a voz de forma intensa e sem nenhum preparo. Os gritos prolongados podem provocar rouquidão, fadiga vocal e até favorecer o surgimento de lesões nas pregas vocais”, explica. Além dos torcedores, a situação também afeta diretamente os artistas, que frequentemente ampliam suas agendas para apresentações em festas temáticas, fan fests e eventos voltados para a transmissão dos jogos. Ou seja: enquanto os torcedores colocam a voz à prova nas arquibancadas e nos bares, os cantores enfrentam uma carga ainda maior nos palcos.
Quando a audição também entra em campo
A preocupação não se limita à voz. Shows, festas, paredões de som, caixas acústicas potentes e grandes concentrações de torcedores aumentam significativamente a exposição ao ruído. Segundo a especialista, sintomas como zumbido, sensação de ouvido tampado e desconforto auditivo após festas e jogos não devem ser ignorados. “São sinais de que o sistema auditivo foi submetido a uma carga excessiva de som. Se esses sintomas persistirem por mais de 24 horas, a pessoa deve procurar avaliação especializada”, orienta.
Como proteger a voz durante o São João e a Copa
Especialistas recomendam medidas simples para atravessar esse período sem prejuízos para a saúde vocal, em três etapas. Antes das festas é preciso dormir bem, alimentar-se adequadamente, evitar ir para eventos já com a voz cansada e manter boa hidratação. Durante os festejos é fundamental beber água regularmente, mesmo sem sede, evitar gritos prolongados, não competir com o volume do ambiente, fazer pausas vocais sempre que possível, reduzir o consumo de álcool e evitar exposição prolongada à fumaça de fogueiras. O pós-festa também requer cuidados como fazer repouso vocal relativo, dormir adequadamente, manter a hidratação e procurar avaliação especializada se a rouquidão persistir por mais de 15 dias.
Para a fonoaudióloga, proteger a voz durante os festejos juninos vai muito além de uma questão de conforto: “A voz é o principal instrumento de trabalho de muitos profissionais e também uma ferramenta essencial para a comunicação de qualquer pessoa. Cuidar dela significa garantir que possamos continuar celebrando nossa cultura, nossa música e nossos encontros sem transformar a diversão em um problema de saúde.”
Carolina Pamponet – Graduada em Fonoaudiologia e especialista em Audiologia Clínica e Ocupacional com enfoque na saúde do trabalhador e em distúrbios da voz falada e cantada e comunicação humana, Carolina Pamponet atua com cantores de alta performance vocal há mais de 20 anos. Sua experiência profissional lhe permite intervir em problemas da aprendizagem, desordens motoras da fala e motricidade orofacial, nas alterações respiratórias e traumas da face, entre outras patologias, e neuromodulação transcraniana. É diretora da Fonoclin, primeira clínica especializada de Fonoaudiologia em Feira de Santana (BA), e atualmente integra o corpo clínico da Otorrino Center, na capital baiana.

