Para muita gente, o fim de ano funciona como uma espécie de “liberação geral”: a rotina de treinos é suspensa, a agenda da academia some do calendário e tudo fica para janeiro. Só que o corpo não acompanha esse raciocínio. “O organismo não entende de recesso, ele responde a hábitos. Se você passa muitos dias dormindo mal, comendo em excesso e sem se mexer, vai sentir o impacto na disposição, no humor e na saúde”, explica a personal trainer Thaise Sorrisinho.
A boa notícia é que o recesso não precisa ser vivido como um período de culpa ou abandono. Ele pode ser justamente a oportunidade de tirar o exercício do lugar de obrigação e aproximá-lo de algo mais leve e prazeroso. Em vez de encarar o treino como mais um compromisso rígido em uma época já cheia de eventos, Thaise propõe mudar a pergunta: não é “como manter a planilha perfeita?”, mas “como posso continuar me movimentando, do jeito que é possível para mim agora?”. Caminhadas ao ar livre, brincadeiras com crianças, dançar nas festas, subir escadas, explorar o bairro a pé, tudo conta. “O que faz diferença não é um treino isolado, é não zerar o movimento. Se você passa 10, 15 dias praticamente parado, o corpo sente. Mas se mantém pequenas doses de atividade, o retorno em janeiro é muito mais fácil”, orienta.
O recesso também é um momento fértil para testar formatos que a correria do dia a dia não permite. Quem vive preso ao relógio da academia pode descobrir que gosta de caminhar cedo na praia, que se sente melhor depois de uma volta mais longa com o cachorro ou que um circuito simples em casa, de 15 a 20 minutos, já muda o nível de energia. Thaise costuma sugerir um compromisso mínimo, realista, em vez de metas grandiosas que não se sustentam. “É melhor assumir que vai se mexer 15 minutos por dia e cumprir, do que prometer uma hora de treino e não fazer nada. Constância pequena ainda é constância”, afirma. A ideia é construir micro-hábitos: alongar ao acordar, escolher ir a pé a alguns lugares, reservar um horário do dia para um vídeo guiado de exercício ou uma sequência de agachamentos, pranchas e movimentos articulares.
E para quem não abre mão de um treino mais específico, Thaise indica “pode optar por treinos mais curtos de 20 a 30 minutos, 3 vezes por semana, sendo suficiente para preservar condicionamento e força. Além de poder priorizar exercícios com peso corporal ou substituir os aparelhos pelas faixas elásticas para treinos.”

Nas festas, onde a combinação de álcool, sono irregular e alimentação mais pesada é quase regra, a orientação é buscar equilíbrio possível, não perfeição. Um pouco de planejamento ajuda: fazer uma caminhada antes da ceia, não passar o dia inteiro em jejum, alternar bebida alcoólica com água e, se a música tocar, ir para a pista sem culpa. “Dançar é movimento, gasta energia, melhora o humor e ajuda até a compensar um pouco o excesso da mesa. O problema maior não é a festa em si, é somar exagero com sedentarismo total nos dias seguintes”, pontua Thaise. Ela reforça que o descanso também é parte importante do processo. Dormir melhor, mesmo que em horários um pouco diferentes, favorece a recuperação do corpo e torna qualquer tipo de atividade mais agradável.
Para quem viaja no recesso, a personal recomenda olhar para o deslocamento e para o destino com outros olhos. Em vez de encarar aeroporto, estrada e hotel apenas como etapas passivas, é possível inseri-los na lógica do cuidado. Caminhar pelo saguão enquanto espera o embarque, fazer pequenas pausas para alongar na estrada, usar as escadas do hotel, explorar a cidade a pé ou de bicicleta: tudo isso transforma o cenário de férias em aliado da saúde. “Não é porque você está longe da academia que precisa virar estátua. O corpo agradece qualquer atitude que o tire da inércia”, diz.
No fim, o convite de Thaise é para uma mudança de relação com a atividade física. Menos cobrança, mais consciência. Menos “pagar pelos excessos”, mais cuidado contínuo, adaptado à fase que a pessoa está vivendo. “Quando você deixa de enxergar o exercício só como um meio para caber numa roupa e passa a perceber como ele melhora seu sono, seu humor, sua disposição para aproveitar as festas e as viagens, tudo muda. O movimento deixa de ser castigo e vira um aliado”, resume. Assim, o recesso deixa de ser um parêntese de abandono e pode se tornar o ponto de partida para uma relação mais madura, gentil e duradoura com o próprio corpo.
Sobre a especialista
Thaise Sorrisinho é Personal Trainer com atuação focada em performance e condicionamento físico. Integra o time de professores da Velocity Salvador e oferece acompanhamento presencial e consultoria online para diferentes perfis de alunas. Seu trabalho é reconhecido pelo foco em resultados consistentes, treinamento seguro e aplicação de métodos baseados em evidências científicas. Saiba mais pelo Instagram: @sorrisinhooficial.

