quinta-feira, abril 9, 2026
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Com Aline Bei, Andréa Del Fuego, Luciany Aparecida e Socorro Acioli, Bienal do Livro Bahia reúne mulheres que renovam a literatura brasileira

Regina Luz, Bárbara Carine, Carla Akotirene e mais vozes baianas também estão entre as escritoras que protagonizam a programação da edição 2026

As mulheres estarão no seio de algumas das conversas mais potentes da Bienal do Livro Bahia 2026, que acontece de 15 a 21 de abril, no Centro de Convenções Salvador. Em uma programação marcada pela pluralidade de vozes e pela força da literatura produzida por mulheres, a Bienal reunirá autoras baianas e nacionais que têm renovado a cena literária brasileira, conquistado novos leitores e colocado em voga temas como ancestralidade, racismo, feminismo, sexualidade, maternidade, memória, afeto e pertencimento.

Em um momento em que as mulheres dominam listas de mais vendidos, premiações e comunidades de leitura no ambiente digital, a Bienal do Livro Bahia reforça a centralidade dessas vozes na cena literária atual. Da prosa intimista ao realismo fantástico, da poesia falada às narrativas young adult, as vozes confirmadas para esta edição representam diferentes gerações e estilos, mas têm em comum a capacidade de transformar experiências individuais em relatos universais.

Entre os nomes centrais da agenda está a cearense Socorro Acioli, reconhecida como uma das vozes mais originais da ficção brasileira de hoje. Com uma trajetória construída a partir do diálogo entre religiosidade popular, realismo fantástico e tradição nordestina, Acioli participa, no dia 18 de abril, às 17h, do painel “Rádio Companhia ao vivo apresenta: especial 40 anos Companhia das Letras”, com mediação da editora Stéphanie Roque.

Autora de mais de vinte livros, entre eles “A cabeça do santo”, “Oração para Desaparecer” e “Ela tem olhos de céu”, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, Socorro Acioli tem ganhado os corações dos leitores mais jovens. Seus romances voltaram a figurar entre os títulos mais procurados nas livrarias após ganharem força nas redes sociais. Para leitores e especialistas, o fenômeno está ligado à potência simbólica de sua escrita, que mistura o extraordinário ao cotidiano e constrói uma espécie de realismo mágico com sotaque nordestino.

Foi sob a orientação do escritor colombiano Gabriel García Márquez que Socorro escreveu “A cabeça do santo”, romance publicado em 2014 e traduzido para uma gama de idiomas. A obra acompanha um jovem errante que encontra abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua de santo, em um vilarejo do sertão, e se tornou uma das principais referências contemporâneas da literatura fantástica brasileira.

Ao lado de Socorro Acioli, outros nomes de projeção nacional também aportam na Bahia e integram a grade da Bienal. No dia 19 de abril, às 14h, no Café Literário, a mesa “Evocar memórias, recriar mundos: do que é feita a literatura” reunirá Aline Bei e Andréa del Fuego, duas autoras que vêm escancarando as possibilidades da ficção contemporânea. A atividade terá mediação da jornalista e educadora Edma de Góis.

Aline Bei está entre os mais célebres nomes da geração emergente de romancistas brasileiras. E não é de se espantar que as obras da autora paulista encantem tanto outras mulheres, com suas personagens majoritariamente femininas e uma escrita bordada pela delicadeza, pela fragmentação e por uma elaboração poética das lembranças.

Aline alcançou expressiva repercussão com “O peso do pássaro morto”, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e “Pequena coreografia do adeus”, romance finalista do Jabuti e já adaptado para o teatro. Em 2025, concluiu sua trilogia com “Uma delicada coleção de ausências”, eleito um dos melhores romances do ano pela revista Quatro Cinco Um e já negociado para publicação no exterior.

Em 2026, Aline retorna à Bienal do Livro Bahia. “Sim, eu participei da Bienal passada e foi uma experiência muito marcante. É um público muito interessado, muito carinhoso, muito presente de escuta. Foi super especial poder abraçar e estar com as pessoas. A Bienal da Bahia é sempre muito especial e eu estou super feliz de voltar”, afirma.

Aline também reflete sobre o jeito como o silêncio se acomoda em suas páginas e ajuda a dar contorno às dores de suas personagens. “O silêncio é um dos meus grandes temas, e ele também é, para além do tema, uma presença plástica no meu trabalho. De alguma maneira, eu convoco a presença da folha para a linguagem, e nesse espaço que salta, nesse ar que respira entre as palavras, nesses fragmentos que avançam em direção a um abismo, eu consigo lidar melhor com a minha própria linguagem e com os meus assuntos, com essas minhas personagens que são mulheres muitas vezes quebradas, traumatizadas, mas que ainda assim conservam em si alguma esperança, alguma luminosidade.”

Também integrante da mesa, Andréa del Fuego é autora de “Os Malaquias”, vencedor do Prêmio José Saramago, e de romances que transitam entre o fantástico, a filosofia e as relações familiares. Andréa tem obras publicadas em 12 países, como Alemanha, França e Argentina. Seu livro mais recente, “A Pediatra”, protagonizado por uma médica manipuladora que não gosta de crianças, reafirma um estilo pautado pela inventividade e pela reflexão sobre os papéis historicamente atribuídos às mulheres.

“Fazer uma mesa com Aline Bei na Bahia me parece unir duas maravilhas: a poética e a alma do país”, resume Del Fuego. A autora reitera que sua escrita nasce da sua avidez pelas ambiguidades humanas. “Me interessa investigar as contradições nas relações humanas, por exemplo: como é possível amar odiar alguém, ou odiar estar amando?”, indaga.

No dia 21 de abril, às 16h, no Café Literário, a mesa “A trama e o tempo: horizontes da literatura brasileira” contará com a presença de Luciany Aparecida, baiana do Vale do Jiquiriçá e uma das escritoras mais elogiadas da atualidade. Compõem a mesa a escritora Bianca Santana e Denise Carrascosa, professora e mediadora da conversa.

Autora de “Mata Doce”, romance finalista do Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2024, Luciany Aparecida escreve histórias que perpassam a memória, violência, linguagem e território, em uma narrativa sofisticada e profundamente ligada às experiências femininas.

A presença de Luciany na Bienal ganha mais imprtância no momento em que “Mata Doce” passa a circular intensamente entre leitores baianos. É que o romance foi escolhido como obra do vestibular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e, recentemente, apareceu também em um concurso público da Secretaria da Saúde do Estado. “Saber que estarei com esse romance na Bienal da Bahia, em proximidade ao público, me anima muitíssimo. Penso que é indispensável que possibilitemos espaços de encontros para conversas sobre o livro e a leitura”, avalia.

A autora acentua a influência decisiva da Bahia em sua escrita. “Ser baiana é a melhor parte da minha biografia. Quando escrevo, me agrada deixar que a água-memória desse território mate a sede das histórias que quero contar. A Bahia é um espaço geográfico e cultural complexo. A história desse território conta sobre a formação do Brasil. Por isso, pensar o mundo a partir daqui é também compreender as estruturas que constituíram a formação das Américas. A Bahia nos ensina que o grande acontecimento pode ser o encontro.”

Tais qual Luciany, outras escritoras da Bahia ocupam posição de relevo na agenda da Bienal. No dia 15 de abril, às 16h, a professora e pesquisadora Bárbara Carine participa da mesa “Festas, feiras e festivais literários – Programa Bahia Literária”, ao lado do jornalista e escritor Ricardo Ishmael. Mediado por Sandro Magalhães, diretor-geral da Fundação Pedro Calmon – instituição também responsável pela curadoria desse painel –, o encontro propõe uma reflexão sobre a efervescência literária que atravessa a Bahia, impulsionada pelo programa do Governo do Estado, realizado por meio da Secult e da Fundação Pedro Calmon, que prevê o apoio a mais de 80 feiras e festivais em 2026, nos 27 Territórios de Identidade baianos.

Referência nacional em educação antirracista, Bárbara é autora do best-seller “Como ser um educador antirracista”, vencedor do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Educação, e uma das intelectuais baianas que têm ampliado o debate sobre raça, educação e formação de leitores.

Também integra esse conjunto de vozes Carla Akotirene, que participa, no dia 21 de abril, às 13h, da mesa “Afeto e Resiliência nas Relações”. Doutora em Estudos Feministas pela UFBA e autora de livros fundamentais para o pensamento contemporâneo, como “O que é interseccionalidade?”, Carla é uma das vozes mais respeitadas do feminismo negro brasileiro e leva para a Bienal discussões inadiáveis sobre racismo estrutural, gênero e desigualdade.

Novas vozes baianas também ganham palco na programação. Multiartista, poeta e idealizadora do Slam das Minas – Bahia, NegaFyah participa, no dia 21 de abril, na Arena Farol, às 11h, do “Sarau Corpos que Dizem”. Em sua obra e em suas performances, a artista transforma em poesia questões amargas como racismo, machismo, feminicídio e a solidão da mulher negra, articulando denúncia e resistência. Seu livro “Fyah: Do Ódio ao Amor” faz ressoar os tambores das quebradas de Salvador e dialoga com a tradição da literatura negra, feminina e diaspórica, porque transita entre oralidade, escrita e performance.

Na mesma atividade estará Ryane Leão, poeta best-seller que reúne mais de 600 mil leitores nas redes sociais, na página “Onde jazz meu coração”. Autora de “Tudo nela brilha e queima” e “Jamais peço desculpas por me derramar”, foi justamente na internet onde a cuiabana se tornou popular por meio da partilha de seus textos. Ryane representa uma geração de mulheres que encontrou nesse meio, assim como na rua – com os slams –, uma nova forma de fazer circular a literatura e criar comunidades por meio e em torno da escrita.

Entre essas criadoras em ascensão está Regina Luz, escritora soteropolitana que assina cinco livros – destes, três para o público infantil. Mesmo que para leitores mirins, Regina trata de temas como ancestralidade, protagonismo negro e memória. Em “Alika”, ela aborda o racismo vivido pela personagem e apresenta uma perspectiva antirracista à crianças. Para a autora, é justamente na infância que essas mensagens encontram terreno mais fértil.

“Acredito na necessidade de deixar bem claras as nossas dores logo na infância, porque é um período no qual se forma o adulto consciente de sua potência. Falar da exclusão na infância fortalece o nosso povo para enfrentar as dificuldades que são complexas”, enfatiza Regina.

Regina estará, no dia 15 de abril, às 13h30, no Espaço Infantil Colgate – Portais da Palavra, com o livro “Meu sonho, cor do luar”. A história desperta sensibilidade, valores e reflexões sobre a necessidade de realizar os seus sonhos e enaltecer a beleza interior e sobre a coragem para conhecer a sua origem. A autora reconhece a importância de conectar estudantes de escolas públicas, público cativo da Bienal do Livro Bahia, aos seus títulos. “Saber que a minha obra vai chegar às crianças de escola pública, onde a maioria é negra, me alimenta de coragem e responsabilidade”, diz.

Para além dessas autoras, a Bienal promove, no espaço Café Literário, dois encontros de literatura contemporânea de autoria feminina, ambos com curadoria da escritora e roteirista Josélia Aguiar. No dia 18 de abril, ao meio-dia, “Meninas, mulheres” aproxima duas romancistas de extremos do país: Verenilde Santos Pereira, da Amazônia, e Julia Dantas, de Porto Alegre, em uma conversa sobre histórias de meninas e mulheres em situações de deslocamento, risco, luto e busca de autonomia. Mais tarde, às 18h, “A casa e a rua” une a gaúcha Eliane Marques e a mineira Nara Vidal, radicada na Inglaterra, autoras que transitam entre prosa e poesia e investigam, em seus livros, as tensões entre a intimidade e o mundo, assim como os vínculos afetivos e suas violências.

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