O Carnaval de Salvador não movimenta apenas trios, blocos e foliões. Por trás da festa, existe uma engrenagem complexa, e cada vez mais sofisticada, que aquece a economia criativa baiana e consolida a cidade como um grande laboratório de inovação, experiência e produção em escala. É nesse bastidor que estúdios, designers, técnicos e fornecedores locais encontram um ciclo de oportunidades que começa no Verão e se estende pelo ano inteiro.
A Blueartes, estúdio boutique baiano que ganhou visibilidade nesta temporada ao assinar ativações para a Coca-Cola no Festival de Verão, como o Food Fest e o Palco Rua by Coke Studio, integrando música, experiência e cenografia com alto nível técnico. A empresa também confirmou presença no Camarote Salvador, onde será responsável por todos os bares Petra, reforçando um movimento que vem se intensificando: grandes projetos, marcas nacionais e globais, e um número crescente de contratações de fornecedores e produtoras da Bahia.
Para muitas empresas do segmento, os meses de janeiro e fevereiro concentram o maior volume de trabalho e o pico de faturamento anual. “Os meses de janeiro e fevereiro sazonalmente representam o momento de maior faturamento da empresa, em consequência do volume de trabalho gerado pelas demandas de montagem relacionadas ao Carnaval”, afirma Vitor Barreto, sócio da Blueartes, em entrevista ao Fato Bahia.
O impacto não fica restrito ao curto período de festa. Segundo ele, as relações comerciais abertas por demandas do Carnaval tendem a continuar ao longo do ano, fidelizando contratos e criando uma espécie de “esteira” de projetos: quem entrega bem sob pressão, costuma ser lembrado depois — em eventos corporativos, ativações de varejo, festivais, feiras e lançamentos.
A dimensão do Carnaval de Salvador exige velocidade, precisão e um ecossistema de profissionais preparados. E é justamente aí que a festa vira um “treinamento intensivo” para o mercado criativo.
Vitor Barreto explica que, com o grande fluxo de produção, empresas locais nem sempre conseguem dar vazão sozinhas, o que atrai fornecedores de outros estados. O resultado é um intercâmbio orgânico de técnicas, ferramentas e métodos de montagem. “A cultura do segmento de Montagem e de Cenografia é de colaboração, empresas concorrentes costumam trabalhar em apoio mútuo, trocando ferramentas, substratos e técnicas de montagem durante as instalações”, relata.
Esse efeito é relevante: em vez de apenas “consumir” serviços externos, a Bahia passa a absorver conhecimento, especializar a mão de obra e ampliar a competitividade de quem atua localmente.
Priorizar o que é da Bahia
Nos últimos anos, um dos sinais mais claros de maturidade do setor é o avanço da contratação de empresas baianas para execução de serviços. A melhora da qualificação e a competitividade de preço ajudam, mas há também um fator estratégico: trazer equipes de fora encarece o orçamento, o que favorece a contratação local.
Vitor cita o próprio Camarote Salvador como exemplo de virada: o espaço, que antes concentrava a cenografia em empresa de São Paulo, passou a contratar empresas da Bahia, incluindo a Blueartes. Esse movimento fortalece um ecossistema inteiro: do estúdio criativo ao marceneiro, do serralheiro ao impressor, da logística ao acabamento final.
O Carnaval funciona, na prática, como uma vitrine de alcance nacional. Para empresas criativas, é a chance de performar diante de marcas, produtores e decisores que estão na cidade justamente para ver “o que a Bahia sabe fazer”.
“Sim, o Carnaval funciona como uma grande vitrine. Muitas relações comerciais iniciadas no Carnaval se desdobram em trabalhos durante o ano”, diz Vitor.
Se antes a diferenciação estava apenas no impacto visual, hoje ela também passa por processos, parque tecnológico e capacidade produtiva. Vitor resume o momento como uma mudança de era: a velocidade virou diferencial estratégico, impulsionada pelas tecnologias de comunicação e pelo comportamento de consumo em tempo real.
“O desafio é conseguir entregar a mesma qualidade com um prazo de produção curto. Esse é um diferencial da Blueartes”, pontua. Para ele, empresas que não investirem em tecnologia e qualificação para acelerar processos perderão espaço e o Carnaval, por exigir performance máxima, antecipa tendências que depois se tornam padrão em outros mercados.

Sustentabilidade
Outro eixo que tende a crescer nos próximos anos é a sustentabilidade aplicada à cenografia e ao design de experiência. A Blueartes vem apostando em soluções como o Ecoboard, material sustentável, leve e de alta performance, usado em ambientes interativos e de alto impacto visual, com boa resposta em iniciativas como a Feira Estudantil realizada em dezembro, na Arena Fonte Nova.
Ainda assim, Vitor reconhece que existe um desafio cultural para ampliar a adoção dessas soluções no mercado local. Para ele, trata-se de uma oportunidade de médio e longo prazo e, ao mesmo tempo, uma missão de “vanguarda” para fomentar a cadeia produtiva sustentável.
Perguntamos a Blueartes, o que falta para ampliar o protagonismo criativo local?
Mesmo com excelência criativa, a Bahia ainda enfrenta barreiras para ampliar seu protagonismo com empresas sediadas no estado. Vitor aponta dois entraves: a fragilidade do setor de serviços em qualidade e compromisso (o que gera desconfiança) e o êxodo de profissionais, talentos que se destacam e migram para centros com bases salariais mais atrativas.
Além disso, existe um fator estrutural: orçamento. “As grandes marcas possuem verbas menores para eventos realizados nas praças do Nordeste”, afirma. Para ele, o planejamento orçamentário é um dos principais pontos que limitam um protagonismo ainda maior para empresas locais, mesmo quando a entrega técnica e criativa já está no nível exigido pelo mercado nacional.
Em suma, o Carnaval de Salvador é mais do que um evento cultural: é um motor econômico e uma plataforma de desenvolvimento para a economia criativa. Ele gera demanda em cadeia, forma profissionais, estimula investimento em tecnologia, atrai marcas e cria um ciclo de contratos que se estende pelo ano.
Enquanto a cidade celebra nas ruas, uma Bahia produtiva e altamente especializada trabalha nos bastidores, transformando o Verão em vitrine e o Carnaval em impulso para estúdios, designers, técnicos e fornecedores que crescem junto com o calendário festivo.

