O canto vai além da execução musical: ele se materializa como sonho, tornando-se um espaço de encontro, troca e aprendizado entre gerações. Na capital baiana, esse movimento ganha força através de metodologias que unem a técnica vocal ao acolhimento emocional, provando que o desejo de se expressar artisticamente não tem idade.
Os sonhos adormecidos na juventude tendem a aflorar na terceira idade, quando junto com ela chega a maturidade e a busca por novos interesses ou hobbies. O envelhecimento traz experiência e sabedoria, ampliando a bagagem emocional e afetiva, permitindo que a voz carregue não apenas memórias, mas também desejos que ainda pulsam. Nesse caminho, a voz madura encontra liberdade para se expressar, ressignificando histórias e lembrando que sonhar não tem idade. Por isso, o canto é uma atividade que atrai adeptos dessa geração, sobretudo como um convite à melhoria da qualidade de vida.
A atenção cuidadosa e a partilha sensível tornam a experiência uma oportunidade de encontro, fortalecendo vínculos e criando um sentido coletivo. A atividade também promove reconhecimento mútuo e cria um espaço seguro, onde cada pessoa pode explorar suas emoções e expressar sua própria história. Demó Santana, de 67 anos, conta que sempre gostou de cantar, mas que só começou a se dedicar de fato à atividade após o incentivo e elogio de uma amiga. Para ela, o canto na terceira idade representa superação. A prática ajudou-a a enfrentar medos e bloqueios, como a timidez. “Pra mim, cantar é escutar os sentimentos, é pulsar no ritmo do coração”, afirma Demó Santana.
“Não existe voz sem vivência. A voz é o resultado e o molde da própria história e da personalidade de cada um. Um dos valores mais importantes do nosso método é o acolhimento sem julgamentos, a escuta atenta e o desejo de conduzir as pessoas as suas melhores versões através do canto, sempre com embasamento técnico e seguro. Inclusive, na minha perspectiva, não há dissociação entre humanidade de voz cantada. São dois fatores que precisam ser integrados o tempo inteiro. Com isso conseguimos resultados há anos que não só refletem na melhoria do canto dos nossos alunos, mas também no afeto que transforma a comunidade todos os dias”, conta Mylane Mutti, professora de canto e idealizadora da escola de formação musical Cantoário.
Encontro de gerações
Na Cantoário, por exemplo, escola de canto localizada em Salvador, no bairro do Rio Vermelho, ninguém canta sozinho. A convivência entre diferentes faixas etárias amplia a escuta e enriquece os processos criativos. A presença simultânea de jovens e pessoas mais velhas permite uma troca constante de perspectivas, em que a curiosidade da juventude encontra a experiência e a memória da maturidade.
Sarah Ferreira, de 23 anos, afirma que todas as trocas que teve na Cantoário foram transformadoras de alguma forma. “Estar com pessoas mais maduras, com diferentes níveis de experiência no palco, e com trajetórias de vida tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão parecidas, me fez crescer muito enquanto pessoa e também enquanto artista. Acredito que a gente sempre leva algo de cada encontro, e encontrar pessoas tão singulares me faz colocar um pouquinho de cada uma delas comigo em cada apresentação, e, com isso, perceber que também pode existir um pouco de mim nos palcos com elas. A Cantoario tem esse soar mágico porque é feita dessa comunidade”, conta Sarah Ferreira.
Esse encontro reafirma o canto como uma prática viva, em permanente transformação. Um exemplo dessa proposta é a oficina Voz em Cena, projeto de verão que integra teatro e música. A iniciativa reúne participantes entre 13 e 60 anos em processos criativos compartilhados. “Conseguimos formar grupos diversos de maneira harmônica e muito potente. Este ano a oficina acontece em março e em breve vamos divulgar as incrições”, conta Mylane Mutti. Nas rodas de conversa realizadas após as apresentações, os participantes destacam a emoção de contracenar, aprender e criar juntos, atravessando diferenças geracionais.
“No canto expressamos nossos quereres e sonhos, assim como as dúvidas e medos. Quanto mais experiências vividas mais expressões de interpretação teremos. Cantar é se revelar, é um encontro com os sentimentos. É um caminho gostoso de andar porque cantando nos vemos, revemos e nos projetamos. É como a leitura, é uma viagem além dos limites, é sintonia de ganha harmonia e letras que descrevem a vida”, conta Toni Carcará.
SERVIÇO
Cantoário – Escola de Canto
- O que oferece: Aulas de canto individual e em grupo, além de projetos de integração da música e o teatro,como a oficina Voz em Cena.
- Localização: Rio Vermelho, Salvador – BA.
- Instagram: @cantoario.ssa

