sexta-feira, agosto 29, 2025
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Baixa participação feminina no comando dos partidos desafia a democracia brasileira

A desigualdade de gênero na política brasileira segue evidente na composição das executivas nacionais dos principais partidos. Entre as 10 siglas com maior representatividade na Câmara dos Deputados, oito não atingem sequer 30% de presença feminina em seus órgãos decisórios. Esse cenário reflete um dos maiores desafios para a democracia: garantir igualdade de acesso e poder para mulheres na política.

A baixa representatividade feminina nos comandos partidários, apontam cientistas políticas e parlamentares, limita recursos e espaços para as candidatas. Muitas vezes, mulheres são incluídas como “laranjas” apenas para cumprir a cota de gênero prevista na legislação, sem reais oportunidades de desenvolvimento político. Além disso, elas frequentemente são preteridas em indicações para ministérios, lideranças no Congresso e relatorias de projetos de grande relevância, como o Orçamento e reformas administrativas ou tributárias.

Um levantamento da GloboNews revela que, nas executivas nacionais dos principais partidos, a presença feminina é significativamente inferior à masculina. Confira os dados:

• PL: 22 integrantes; 3 mulheres (13%)

• PT: 29 integrantes; 14 mulheres (48%)

• União Brasil: 14 integrantes; 2 mulheres (14%)

• PP: 30 integrantes; 5 mulheres (16%)

• MDB: 10 integrantes; 2 mulheres (20%)

• PSD: 35 integrantes; 11 mulheres (31%)

• Republicanos: 17 integrantes; 3 mulheres (17%)

• PDT: 30 integrantes; 8 mulheres (26%)

• PSB: 47 integrantes; 12 mulheres (25%)

• PSDB: 37 integrantes; 8 mulheres (21%)

A proporção é ainda mais desalentadora quando se analisa o comando partidário. Apenas cinco siglas possuem mulheres na presidência: PCdoB (Luciana Santos), Podemos (Renata Abreu), PSOL (Paula Coradi), Rede (Heloísa Helena) e PMB (Suêd Haidar Nogueira). Recentemente, o PT também era liderado por uma mulher, Gleisi Hoffmann, que deixou o cargo para assumir a Secretaria de Relações Institucionais do governo federal.

Embora o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva tenha o maior número de mulheres ministras da história — 10 das 38 pastas (26%) —, o percentual ainda está distante da paridade. Entre as ministras, duas lideraram partidos: Gleisi Hoffmann (PT) e Luciana Santos (PCdoB).

Um desafio histórico

Desde 1934, quando Carlota Pereira de Queirós se tornou a primeira deputada federal eleita no Brasil, apenas 335 mulheres ocuparam cadeiras na Câmara dos Deputados. Isso significa que, em 90 anos, elas não preencheriam nem um único plenário completo de 513 vagas.

Atualmente, o Congresso registra 91 deputadas e 16 senadoras, um recorde que ainda evidencia a sub-representação feminina. Essa desigualdade reflete o predomínio masculino nas estruturas partidárias, como aponta a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), coordenadora adjunta da Secretaria da Mulher na Câmara:

“Os homens controlam as legendas, o que impacta na priorização das candidaturas femininas e perpetua o fenômeno das candidatas laranjas e das vices apenas para cumprir a cota de gênero.”

No Senado, onde a Mesa Diretora é composta por 11 integrantes, apenas três são mulheres. Para a senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), a ausência de mulheres nos espaços de decisão partidária limita seu avanço na política:

“É essencial incentivar a participação feminina, criar mecanismos que fortaleçam a presença delas nos partidos e cobrar compromissos reais das legendas com a paridade de gênero.”

Caminhos para a mudança

Especialistas e parlamentares defendem mudanças estruturais para ampliar a presença feminina na política. A ex-deputada Vivi Reis sugere a criação de regras que garantam maior participação feminina nas instâncias de comando partidário. No entanto, como os partidos têm autonomia, essa decisão precisa partir das próprias legendas.

“Sem mulheres em cargos estratégicos, as decisões políticas não refletem nossas pautas e lutas de forma prioritária. Além disso, a ausência de lideranças femininas desestimula outras mulheres a ingressarem e permanecerem na política”, ressalta Vivi Reis.

Promover igualdade de gênero na política exige mais do que cumprir cotas eleitorais. Trata-se de assegurar que mulheres tenham espaço e voz em todas as esferas de decisão, fortalecendo a democracia e garantindo uma representação mais justa e diversa no Brasil.

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